ISSN: 2178-602X Artigo Seção Temática Volume 18, Número 2, mai-ago de 2024 Submetido em: 13/02/2024 Aprovado em: 22/05/2024 Rumo a uma teoria popular de algoritmos1 Toward a popular theory of algorithms Hacia una teoría popular de los algoritmos Ignacio SILES2 Edgar GÓMEZ-CRUZ3 Paola RICAURTE4 Resumo Este artigo estabelece diálogos entre as teorias dos estudos populares e os estudos críticos de algoritmos e dataficação. O objetivo é contribuir para reverter a tendência analítica de assumir que os algoritmos possuem efeitos universais e que as conclusões sobre o “poder algorítmico” no Norte Global se aplicam, sem problemas, em todos os outros lugares. Começamos esclarecendo como os estudiosos latino-americanos e outras tradições de pesquisa teorizaram o popular. Em seguida, desenvolvemos quatro dimensões de o popular para implementar tais ideias no caso de algoritmos: práticas culturais lúdicas, imaginação, resistência e in-betweenness (intermediação). Argumentamos que este diálogo pode gerar diferentes maneiras de pensar os problemas inerentes à mediação algorítmica, chamando a atenção para os remixes de práticas culturais, soluções imaginativas para problemas cotidianos, formas de resistência “ciborgues” e formas ambíguas de agência que são atualmente centrais para as operações algorítmicas. Palavras-chave: algoritmos; estudos críticos; dataficação; estudos populares. Abstract This paper establishes dialogs between theories on the popular and critical studies on algorithms and datafication. In doing so, it contributes to reversing the analytical 1 Este texto foi publicado originalmente em Popular Communication, 2023, vol 21, n.1, p. 57-70, DOI: 10.1080/15405702.2022.2103140. Tradução do inglês de Luiza Ferreira. (Foram feitas algumas adaptações formais em função dos critérios de publicação da Revista Mídia e Cotidiano). 2 Doutor em Mídia, Tecnologia e Sociedade. Professor da Universidad de Costa Rica, Facultad de Ciencias Sociales. Email: ignacio.siles@ucr.ac.cr. ORCID: https://orcid.org/ 0000-0002-9725-8694. 3 Doutor em Sociedade de Informação e Conhecimento, Professor Associado da University of Texas at Austin. E-mail: edgar.gomezcruz@ischool.utexas.edu. ORCID: orcid.org/0000-0003-0055-9966. 4 Doutora em Ciências da Linguagem, Professora Associada da Escuela de Humanidades y Educación del Tecnológico de Monterrey, Campus Ciudad de México.E-mail: pricaurt@tec.mx ORCID: 0000- 0001-9952-6659. mailto:ignacio.siles@ucr.ac.cr mailto:edgar.gomezcruz@ischool.utexas.edu Rumo a uma Teoria Popular de algoritmos Mídia e Cotidiano – ISSN 2178-602X ________________________________________________________________________________________________________________ Volume 18 | Número 2 | maio-agosto de 2024 88 tendency to assume that algorithms have universal effects and that conclusions about “algorithmic power” in the Global North apply unproblematically every-where else. We begin by clarifying how Latin American scholars and other research traditions have theorized the popular (“lo popular”). We then develop four dimensions of lo popular to implement these ideas in the case of algorithms: playful cultural practices, imagination, resistance, and “in-betweenness.” We argue that this dialogue can generate different ways of thinking about the problems inherent to algorithmic mediation by drawing attention to the remixes of cultural practices, imaginative solutions to everyday problems, “cyborg” forms of resistance, and ambiguous forms of agency that are central to the operations of algorithmic assemblages nowadays. Keywords: algorithms; critical studies; datafication; popular studies. Resumen Este artículo establece diálogos entre las teorías de los estudios populares y los estudios críticos de algoritmos y datificación. El objetivo es ayudar a revertir la tendencia analítica a asumir que los algoritmos tienen efectos universales y que las conclusiones sobre el “poder algorítmico” en el Norte Global se aplican, sin problemas, en todas partes. Comenzamos aclarando cómo los académicos latinoamericanos y otras tradiciones de investigación han teorizado sobre lo popular. Luego desarrollamos cuatro dimensiones de lo popular para implementar tales ideas en el caso de los algoritmos: prácticas culturales lúdicas, imaginación, resistencia e intermediación (intermediación). Sostenemos que este diálogo puede generar diferentes formas de pensar sobre los problemas inherentes a la mediación algorítmica, llamando la atención sobre las remezclas de prácticas culturales, las soluciones imaginativas a los problemas cotidianos, las formas “cyborg” de resistencia y las formas ambiguas de agencia que actualmente son centrales. a las operaciones algorítmicas. Palabras clave: algoritmos; estudios críticos; datificación; estudios populares. Introdução Estudos críticos de algoritmos fizeram um trabalho notável ao demonstrar como os vieses algorítmicos são uma parte constitutiva da ecologia digital de hoje (Benjamin, 2019). Tais estudos mostraram como os algoritmos muitas vezes reproduzem e amplificam preconceitos sexistas, patriarcais, racistas e classistas. Com base nestes insights, estudiosos do Sul Global têm voltado cada vez mais sua atenção para os algoritmos. A pesquisa na América Latina tem se concentrado no surgimento de modelos de governança algorítmica e como estes agravaram as desigualdades em toda a região (Barreneche, Bermúdez, & Martín, 2021; Bruno, Cardoso, Kanashiro, Guilhon, & Melgaço, 2019; Silva, 2020). Rumo a uma Teoria Popular de algoritmos Mídia e Cotidiano – ISSN 2178-602X ________________________________________________________________________________________________________________ Volume 18 | Número 2 | maio-agosto de 2024 89 Apesar do crescimento de estudos críticos de algoritmos no Sul Global e suas múltiplas contribuições, persiste uma tendência de assumir que as conclusões sobre o poder dos algoritmos no Norte Global se aplicam sem problemas em todos os outros lugares. Em uma afirmação típica, García Canclini (2020) observou: a opacidade dos algoritmos e a transparência dos nossos dados [. . .] [questionam] a nossa capacidade de funcionar como cidadãos. [. . .] [Isso] deve levar a questões mais radicais do que em qualquer momento anterior sobre o tipo de hegemonia que está sendo instalada. Na antiga distinção Gramsciana, a hegemonia diferia da dominação por não ser uma simples imposição. (pp. 81-82) Na visão de García Canclini, os algoritmos questionam algumas das principais lições derivadas do trabalho sobre consumo cultural na América Latina. Assim, o antropólogo concluiu que “hoje não é tão fácil sustentar uma frase com a qual intitulei um artigo em 1995: o consumo serve para pensar” (García Canclini, 2020, p. 85). De maneira semelhante, Couldry e Mejias, sem dúvida os críticos mais vocais do colonialismo de dados, observaram que “as divisões Norte-Sul, Leste-Oeste não importam mais da mesma maneira” (Couldry & Mejias, 2019, p. 337). O fato de que os mesmos procedimentos algorítmicos operam em lugares diferentes leva esses autores a concluir que seus efeitos são semelhantes onde quer que o colonialismo de dados opere e, como resultado, eles não conseguem mostrar como esses efeitos podem diferir. Esta premissa tende a minimizar as diferenças culturais, históricas e materiais, favorecendo a análise de como os algoritmos levaram ao surgimento de novas formas de dominação capitalista. No entanto, uma vasta literatura tem mostrado que a hegemonia epistêmica é um local chave de disputa (Ricaurte, 2019). Esta premissa também corre o risco de naturalizar disparidades na produção global de conhecimento, pois prioriza pesquisas sobre e a partir do Norte epistêmico e, ao fazê-lo, pode contribuir para tornar invisíveis as epistemes não ocidentais (Ganter & Ortega, 2019; Silva, 2019). Neste artigo, desenvolvemos elementos de uma teoria popular de algoritmos que busca problematizar tais premissas. Nosso argumento prossegue em duas etapas. Começamos esclarecendo como os estudiosos latino-americanos teorizaram o popular (lo popular) e como essas ideias se relacionam com outras tradições intelectuais, principalmente os estudos culturais britânicos. Em seguida, elaboramos quatro dimensões do popular que funcionam como ferramentas conceituais para examinar o caso dos algoritmos: práticas culturais lúdicas, imaginação, resistência e Rumo a uma Teoria Popular de algoritmos Mídia e Cotidiano – ISSN 2178-602X ________________________________________________________________________________________________________________ Volume 18 | Número 2 | maio-agosto de 2024 90 "intermediação" (in-betweenness). Não queremos dizer que esta reflexão seja uma teoria exclusivamente latino-americana, mas sim vinculá-la às epistemologias do Sul, conforme definido por de Sousa Santos (2018), ou seja, saberes ancorados nas experiências de grupos sociais tradicionalmente excluídos e oprimidos. Também não pensamos que qualquer estrutura teórica seja suficiente por si só para explicar as mediações algorítmicas e como elas participam da formação do mundo. Nesse sentido, também elaboramos os desafios que o estudo de algoritmos coloca às teorias do popular. As ferramentas conceituais que propomos destinam-se a estabelecer um diálogo entre o trabalho sobre o popular e os estudos de dataficação no espírito da pedagogia de Paulo Freire (2000), ou seja, como uma oportunidade para desenvolver a consciência crítica de novas possibilidades de pensamento e ação. Em outras palavras, ao explorar suas interseções, procuramos complementar o trabalho acadêmico sobre os estudos de algoritmos populares e críticos por meio dos pontos fortes intelectuais de cada tradição de pesquisa. Algoritmos do cotidiano Dada a multiplicidade de maneiras pelas quais a noção de popular tem sido utilizada, alguns esclarecimentos conceituais se fazem necessários. Segundo Scolari (2015): Se os estudos tradicionais de mídia nos Estados Unidos homologaram a cultura “popular” e “de massa” [. . .], na América Latina “cultura de massa” refere-se à indústria cultural homogeneizada [.. .] enquanto “cultura(s) popular(es)” se relaciona(m) com a cultura folclórica, pré- industrial e/ou a cultura das classes subalternas a partir de uma perspectiva gramsciana. (p. 1095) Em suma, lo popular é uma forma de compreender as experiências cotidianas de sujeitos marginalizados com a mídia. O estudo do popular ocupou um lugar central na obra de Jesús Martín-Barbero (1993), que traçou a evolução das classes populares como sujeito histórico desde o início da modernidade. Martín-Barbero centrou-se no estudo do popular através da noção de mediações e não da mídia, ou seja, os processos e não os objetos, “as articulações entre práticas de comunicação e movimentos sociais e a articulação de diferentes tempos de desenvolvimento com a pluralidade de matrizes culturais” (Martín-Barbero, 1993, p. 187). Na prática, o estudo das mediações traduziu- se em uma análise detalhada de como as classes populares se reconheciam e de suas experiências cotidianas em mídias como a televisão, particularmente por meio de Rumo a uma Teoria Popular de algoritmos Mídia e Cotidiano – ISSN 2178-602X ________________________________________________________________________________________________________________ Volume 18 | Número 2 | maio-agosto de 2024 91 gêneros interpelantes como as telenovelas. Desta forma, Martín-Barbero enfatizou uma visão do popular como um “lugar de onde repensar os processos, o lócus de onde vêm à tona os conflitos que a cultura articula” (Martín-Barbero, 1988, p. 458). O popular abriu um rico terreno de estudo pela diversidade de práticas e possibilidades de expressão que articula. A abordagem de Martín-Barbero tornou-se uma das tradições de pesquisa mais frutíferas da América Latina. Os estudiosos têm trabalhado para transformar o estudo do popular em uma teoria da comunicação que se concentra no estudo de como as pessoas criam significados alternativos em suas apropriações situadas da mídia. O popular é, portanto, “um ponto de vista, uma perspectiva que olha o mundo ‘do outro lado’, ou a experiência ‘do que as pessoas fazem com’ – ou seja, o que as pessoas fazem com o que consomem” (Rincón & Rodríguez, 2015, pp. 173–174). Rincón e Marroquín (2019) resumem adequadamente essa abordagem definindo lo popular como as “experiências pelas quais a mídia se torna parte da vida cotidiana das pessoas e como tais práticas refletem submissão e resistência contra o poder, a economia e as pretensões da hegemonia política da mídia” (p. 44). Com base nesta definição, uma abordagem popular para o estudo de algoritmos busca entender o que as pessoas fazem com algoritmos, mas também como as relações entre pessoas e algoritmos se envolvem na transformação de processos socioculturais. A abordagem de Martín-Barbero incorpora um desafio aos relatos dominantes da hegemonia midiática (incluindo a dataficação) que abandonam o estudo das próprias experiências e práticas das pessoas. A abordagem que discutimos até agora tem afinidades importantes com o trabalho sobre o popular desenvolvido em outros campos intelectuais, principalmente os estudos culturais britânicos. Nesse corpo de trabalho, segundo Fiske (2005), o popular é entendido como “feito por várias formações de pessoas subordinadas ou desempoderadas a partir dos recursos, tanto discursivos quanto materiais, que são fornecidos pelo sistema social que as desempodera” (pp. 1–2). De maneira semelhante, Stuart Hall reagiu contra a tendência de tratar os meios de comunicação como estruturas dominantes e as pessoas como idiotas culturais. Embora não empregasse a noção de mediações, sua abordagem do popular tem notáveis semelhanças com a obra de Martin-Barbero. Nas palavras de Hall, Se as formas de cultura popular comercial fornecidas não são puramente manipuladoras, então é porque, ao lado dos falsos apelos, Rumo a uma Teoria Popular de algoritmos Mídia e Cotidiano – ISSN 2178-602X ________________________________________________________________________________________________________________ Volume 18 | Número 2 | maio-agosto de 2024 92 dos encurtamentos, da banalização e dos curtos-circuitos, há também elementos de reconhecimento e identificação, algo que se aproxima de uma recriação de experiências e atitudes reconhecíveis, às quais as pessoas respondem. (Hall, 2016, p. 233) Autores desta tradição têm defendido a teorização do popular como um local de luta contínua onde se constituem formas de agência coletiva (Harsin & Hayward, 2013). Argumentamos que essa intervenção é uma contribuição útil para o estudo da algoritmização: relatos de poder algorítmico das nuances do popular que descartam as próprias práticas das pessoas e como elas se reconhecem (ou não) em sua relação com os algoritmos (Willson, 2017). Utilizamos a noção de “mediações algorítmicas” para combinar a teoria do reconhecimento de Martín-Barbero e o papel atribuído aos algoritmos na “representação e constituição do mundo social” (Beer, 2013, p. 10). A seguir, desenvolvemos quatro dimensões do popular e como elas dialogam com estudos críticos de algoritmos. Práticas culturais lúdicas O popular se expressa em uma série de práticas lúdicas e corporificadas por meio das quais a cultura é vivenciada e criada. Rincón e Marroquín (2018, 2019) definiram as culturas populares como modos de viver e narrar o mundo que derivam das sensações corpóreas. Portanto, as culturas populares envolvem: “Música e dança, sexualidade, cotidiano, espacialidade, trabalho, festividade, cerimônia, religiosidade, crença, política - estendida àquilo que parece pré-político e até apolítico -, criatividade, magia, conservadorismo, o mundo urbano, o rural, violência, migração” (Alabarces, 2012, p. 32). Uma característica fundamental do popular é que as práticas culturais coexistem e são constantemente combinadas. Lo popular mistura constantemente referências da mídia e costumes e tradições locais, ponto também destacado por Hall (2016). Neste sentido, as culturas populares são sempre híbridas e impuras no sentido de que se afastam das visões hegemônicas do que é limpo, normal e correto (García Canclini, 1989). O foco no popular diverge da noção estabelecida de efeitos universais algorítmicos. As culturas populares materializaram-se em tradições de longa data que são moldadas e moldam a relação das pessoas com ideias, artefatos e conhecimento (Bar, Weber e Pisani, 2016). No caso da América Latina, estas práticas e tradições Rumo a uma Teoria Popular de algoritmos Mídia e Cotidiano – ISSN 2178-602X ________________________________________________________________________________________________________________ Volume 18 | Número 2 | maio-agosto de 2024 93 culturais resultaram de infraestruturas particulares (ou da falta delas), de certas condições econômicas e da primazia das comunidades na experiência do mundo. Essas reflexões oferecem insights importantes para uma teoria popular de algoritmos. Lo popular traz à tona histórias longas e complexas que moldam a relação das pessoas com os artefatos (Silva, 2019). Pesquisas sobre dataficação identificaram uma discrepância entre as iniciativas impulsionadas comercialmente e aquelas que poderiam responder às necessidades das pessoas e das comunidades. Thornham (2019) refere-se a tais discrepâncias como "vulnerabilidades algorítmicas". Estudos baseados em teorias populares de mediações algorítmicas poderiam examinar como essas vulnerabilidades são criadas, mantidas, experimentadas e desafiadas, em vez de assumi-las por seu valor nominal ou apresentá-las como produtos universais de dataficação. A relação algoritmo-cultura tem atraído a atenção de estudiosos interessados nas “conexões que constituem o que mais importa sobre algoritmos: sua integração em práticas, políticas, economia e vida cotidiana” (Slack & Hristova, 2020, p. 16). No entanto, esses estudos tendem a se concentrar no que os algoritmos fazem com a cultura, e não o contrário. Quando os pesquisadores escrevem sobre “culturas algorítmicas”, geralmente é para mostrar como os algoritmos estão implicados na reorganização da dinâmica cultural ou em “[moldar] gostos e manipular as circulações da cultura popular” (Beer, 2013, p. 63). Como complemento, justificamos a necessidade de estudar “culturas algorítmicas populares” que explicam o papel dos algoritmos na formação de categorias culturais e que também situam os sistemas de pensamento e práticas das pessoas dentro das condições culturais específicas em que o uso algorítmico ocorre. Reconhecer como os algoritmos e a cultura popular se moldam mutuamente poderia lançar luz sobre as condições que tornam possível o surgimento de certas mediações algorítmicas. Algumas pesquisas sobre os chamados “influenciadores” de mídias sociais mostraram a relação lúdica que pessoas com determinadas habilidades estabelecem com algoritmos. Cotter (2019), por exemplo, argumenta que os “influenciadores” do Instagram não estão “jogando com o sistema”, mas sim “jogando o jogo”. Considerando como o governo argentino interpretou um tweet postado por um cidadão, Gindin, Cingolani e Rodriguez-Amat (2021) postularam a noção de uma “lacuna de significado” (desfase de sentido) para teorizar as diferenças em como os algoritmos são produzidos Rumo a uma Teoria Popular de algoritmos Mídia e Cotidiano – ISSN 2178-602X ________________________________________________________________________________________________________________ Volume 18 | Número 2 | maio-agosto de 2024 94 e apropriados. Em sua opinião, essa lacuna é o local onde emergem práticas culturais que são constitutivas de trocas de comunicação. Nós defendemos transformar esses insights em uma agenda mais explícita que se concentre na combinação lúdica de práticas culturais. Por exemplo, estudar o uso de plataformas de streaming nos domínios da música e da televisão implicaria examinar a mistura de reações comuns provocadas por certas recomendações em audiências: cumplicidades, provocações, irreverências, fantasias e desejos. Em suma, de uma perspectiva popular, os próprios algoritmos são um melodrama. Além do estudo das mediações algorítmicas na cultura, Seaver (2017) defendeu considerar os algoritmos como culturas em si. Para Seaver (2017), enquanto a primeira abordagem concebe algoritmos e cultura como intrinsecamente diferentes (embora mutuamente dependentes), este último posiciona os algoritmos não como “objetos instáveis, culturalmente promulgados pelas práticas que as pessoas usam para se envolver com eles” (p. 5). Isso sugere que a ontologia das tecnologias é um produto da prática: os algoritmos são trazidos à existência constantemente de diversas maneiras. Com base em Seaver (2017), argumentamos que são necessárias mais análises empíricas para explicar como essa flexibilidade é alcançada na prática. Mais precisamente, seguimos esse convite para estudar algoritmos não apenas como cultura, mas pontualmente como encenações da cultura popular. Esta perspectiva pode se aplicar a estudos de desenvolvedores e usuários de algoritmos, e as junções onde eles se encontram. O estudo de algoritmos na cultura popular e como tal requer uma consideração completa dos métodos. A etnografia, com sua natureza holística, ampla e aberta, pode “lançar luz sobre a complexa mistura de aspectos sociais, culturais e tecnológicos dos sistemas computacionais em nosso cotidiano” (Christin, 2020, p. 7) e, dessa forma, tornar-se uma ferramenta útil no processo de transformar noções como poder algorítmico, colonialismo de dados e capitalismo de vigilância de premissas teóricas em produtos empíricos. Estudos recentes mostraram o potencial de métodos como diários, desenhos, técnicas de scrollback e os chamados métodos digitais em revelar a natureza não declarada e tomada como certa das relações vivas dos usuários com algoritmos (Caliandro, 2018; Risi, Bonini, & Pronzato, 2020; Siles, Espinoza-Rojas, Naranjo, & Tristán, 2019; Siles, Segura-Castillo, Solís-Quesada, & Sancho, 2020). Rumo a uma Teoria Popular de algoritmos Mídia e Cotidiano – ISSN 2178-602X ________________________________________________________________________________________________________________ Volume 18 | Número 2 | maio-agosto de 2024 95 A maioria das pesquisas sobre algoritmos foi realizada nos Estados Unidos e se concentrou em usuários jovens. Mas examinar algoritmos através das lentes do lo popular exigiria trabalho de campo em uma diversidade mais ampla de lugares e espaços, e particularmente com populações sub-representadas. Exigiria também uma discussão muito mais explícita das especificidades culturais e históricas nas quais tanto os algoritmos quanto a cultura passam a existir e se relacionar. Isso, argumentamos, poderia ajudar a entender melhor as “culturas algorítmicas populares” em sua diversidade, ou seja, reconhecer que nem todos os algoritmos são iguais, nem todas as culturas onde são utilizados são iguais e nem todos os resultados da interseção entre culturas e algoritmos são idênticos. Imaginação A imaginação é essencial para entender como os algoritmos são e se tornam parte das culturas populares. Ela incorpora uma capacidade de conceber trajetórias de ação futuras; destaca a capacidade dos atores de se distanciar do passado e “negociar seus caminhos em direção ao futuro” (Emirbayer & Mische, 1998, p. 984) ao criar novas possibilidades de pensamento e ação. A imaginação tornou-se central no trabalho sobre a apropriação das tecnologias digitais no Sul epistêmico. Esses relatos sugerem que não há uma única maneira de entender o que são tecnologias. Um exemplo proeminente é a noção de jugaad ou hacking cotidiano na Índia. Para Rai (2019), jugaad oferece uma alternativa às noções neoliberais de inovação, ao incorporar uma “ética do devir nas cidades inteligentes/de dados estratificados por castas e gêneros da Índia” (p. x). Existem inúmeros equivalentes ao jugaad como capacidades corporificadas de imaginar novas trajetórias para artefatos e ideias que promulgam tradições culturais de longa data na América Latina, como a gambiarra no Brasil ou as atitudes arraigadas de invenção e resolução prática de problemas em lugares como Cuba, que Oroza (2012) teoriza como práticas de desobediência tecnológica no contexto de uma arquitetura da necessidade. Na pedagogia de Freire (2000), a imaginação não é fantasia: ela está diretamente relacionada à possibilidade de agir e transformar o mundo. Imaginar, conhecer e transformar o mundo são ações inseparáveis. Os teóricos decoloniais também desenvolveram estratégias analíticas para enfraquecer as formas binárias de pensamento (Harding, 2016). A noção de criar conhecimento que é de outra forma, ou Rumo a uma Teoria Popular de algoritmos Mídia e Cotidiano – ISSN 2178-602X ________________________________________________________________________________________________________________ Volume 18 | Número 2 | maio-agosto de 2024 96 “outro” conhecimento, aparece recorrentemente nos escritos decoloniais como uma alternativa aos quadros conceituais e políticos ocidentais modernos convencionais. A imaginação como parte intrínseca do conhecimento popular é uma maneira produtiva de examinar as mediações algorítmicas. A imaginação e a formação do conhecimento podem ser vislumbradas como tentativas mutuamente dependentes de reverter a ordem epistêmica de dominação baseada na dataficação e no que pode ser considerado uma “vontade de saber” algorítmica: a base epistêmica para a produção de “verdades algorítmicas” (Ricaurte, 2019). A imaginação também permite compreender como as pessoas experienciam os algoritmos: faz parte de como as pessoas se relacionam com eles (encontrando lugares para eles em seu cotidiano), mas também em como as pessoas antecipam sua chegada em suas vidas “antes” de realmente usá-los e como concebem suas implicações para as relações sociais com os outros “depois” de usá-las (Siles, 2023). Alguns trabalhos em estudos críticos de algoritmos passaram a priorizar uma investigação empírica da imaginação. Um número crescente de estudos se concentrou nos sistemas de pensamento (teorias, imaginários, entendimentos, crenças e expectativas) que as pessoas têm sobre algoritmos e como essas ideias moldam suas ações. A maioria - embora não todos - dos estudos deste tipo se baseou em métodos como entrevistas, grupos focais e pesquisas. Alguns se concentraram na noção de “teorias populares”, ou seja, as “maneiras intuitivas de pensar sobre coisas ou questões, que estão enraizadas em práticas e experiências em evolução, e são funcionais para os indivíduos que as adotam” (Siles et al., 2020, p. 2). Por exemplo, um estudo no Chile mostrou como contextos e valores locais moldaram as teorias populares das pessoas sobre tecnologias de vigilância de dados (Tironi & Valderrama, 2021). Desta forma, argumentam os autores, os usuários problematizaram as ideologias inscritas nos sistemas algorítmicos. De forma mais ampla, Segura e Waisbord (2019) afirmam que a forma como as pessoas imaginam a vigilância na América Latina precisa ser contextualizada na história mais longa da implantação estatal de operações para coletar dados sobre populações nos últimos cinquenta anos (ou a falta dela). Os autores utilizam a noção de “imaginários algorítmicos” de maneira semelhante. Bucher (2018) definiu-os como “maneiras de pensar sobre o que são algoritmos, o que devem ser, como funcionam e o que essas imaginações, por sua vez, tornam possível” (p. 113). Um insight importante desse corpo de trabalho é a noção de Rumo a uma Teoria Popular de algoritmos Mídia e Cotidiano – ISSN 2178-602X ________________________________________________________________________________________________________________ Volume 18 | Número 2 | maio-agosto de 2024 97 que as pessoas não se relacionam com algoritmos da mesma maneira. Semelhante às teorias populares, os imaginários são contextuais aos lugares e histórias em que estão situados. Eles refletem padrões em como os usuários pensam e como se comportam em relação a tais ideias. Apesar do interesse gerado pelas noções da teoria popular e dos imaginários, sabemos pouco sobre como a imaginação popular, as práticas cotidianas de hacking e os conhecimentos práticos para resolver situações cotidianas em relação aos algoritmos variam de um lugar para outro (Cotter, 2019; Kim et al., 2021). Além disso, estudos comparativos são necessários para transcender suposições sobre a generalização de certos imaginários algorítmicos em formações tecnoculturais. Ao considerar a imaginação como intrinsecamente ligada à possibilidade de agir e transformar o mundo (argumento de Freire), a pesquisa também poderia ir além do mero reconhecimento de que as pessoas pensam sobre algoritmos de certas maneiras e, em vez disso, investigar como raça, etnia e classe estão implicadas em teorias populares e imaginários algorítmicos, e como isso se traduz em modos particulares de conhecer, transformar e resistir à dataficação. Resistência A resistência ocupou historicamente um lugar central na tradição dos estudos culturais britânicos. Como pontua Fiske (2005), “a cultura popular é feita em relação às estruturas de dominância. Esta relação pode assumir duas formas principais – a de resistência ou evasão” (p. 2). Tal abordagem compartilha com a erudição latino- americana um foco na resistência enraizada no coletivo e no cotidiano. Ambas as tradições intelectuais também procuraram descobrir as várias estratégias que as pessoas utilizam para garantir sua sobrevivência pessoal e coletiva. Ambos enfatizam como, em contextos de escassez e precariedade, o alegre, irreverente ou burlesco podem se tornar recursos de resistência ordinária (de Certeau, 1984). Uma maneira de aprofundar essa compreensão por meio de uma perspectiva popular é a releitura da categoria ciborgue pela estudiosa chicana Chela Sandoval (1994). Sandoval se perguntou o que significavam a resistência e a política de oposição dos sujeitos oprimidos na virada do século, diante da transnacionalização econômica, política e cultural. Ela concluiu que a consciência oposicionista e dissidente deve abraçar metodologias que possibilitem a emancipação. Essa consciência de oposição é Rumo a uma Teoria Popular de algoritmos Mídia e Cotidiano – ISSN 2178-602X ________________________________________________________________________________________________________________ Volume 18 | Número 2 | maio-agosto de 2024 98 ciborgue no sentido de que é flexível, móvel, diaspórica, esquizofrênica e nômade por natureza. Como Sandoval (2004) coloca, as resistências dos ciborgues criam “histórias de trapaceiros, estratagemas de magia, engano e verdade para curar o mundo” (p. 87). O trabalho sobre lo popular também destaca o caráter carnavalesco da resistência. Rincón e Rodríguez (2015) teorizaram o carnavalesco como forma de dissidência. O popular, sempre polivalente, é o espaço intersticial onde o jogo, o grotesco e o espetacular prosperam. Nessa visão, submissão, subversão e prazer não são necessariamente contraditórios. Assim, lo popular implica simultaneamente uma forma de narrativa, uma experiência estética e uma ética subalterna. A corporeidade e a personificação implicam que, como um ato performativo, lo popular é uma expressão de diferença e diversidade. Desta forma, as subjetividades resistem e subsistem através do caráter corpóreo de suas experiências marginais. Há um interesse crescente na resistência em estudos críticos de algoritmos. A pesquisa tornou visível a gama de táticas comuns - no sentido de Certeau (1984) - empregadas por usuários com diferentes propósitos: perturbar ou ofuscar operações algorítmicas (van der Nagel, 2018); usar plataformas e algoritmos de maneiras imprevistas, incluindo fazê-los servir a propósitos opostos àqueles para os quais foram concebidos (Velkova & Kaun, 2021); expressar insatisfação com os procedimentos de dataficação ou mostrar consciência sobre eles para manifestar agência (Siles, Espinoza-Rojas, Naranjo & Tristán, 2019); e inscrever algoritmos como parte de movimentos sociais e iniciativas de justiça de dados (Dencik, Hintz, & Cable, 2016). Teorizar dimensões populares de resistência, como a ciborgue e a carnavalesca, abre inúmeras possibilidades para entender melhor como as pessoas resistem às mediações algorítmicas. Isto pode revelar como a resistência se espalha na vida cotidiana por meio de práticas formais e informais, tanto de humor quanto de raiva. Sued et al. (2021) demonstraram como grupos feministas latino-americanos têm se engajado em tais formas de resistência coletiva para articular uma mensagem coerente sobre questões como a legalização do aborto e a luta para eliminar a violência contra as mulheres. Isto foi alcançado através da mistura de resistência algorítmica e estética vernácula, ou seja, gramáticas e possibilidades de comunicação próprias das plataformas. Estudos realizados no Brasil também descobriram que a resistência às plataformas algorítmicas adquire significado para os trabalhadores por meio de canais de comunicação não oficiais (como aplicativos de mensagens criptografadas), onde Rumo a uma Teoria Popular de algoritmos Mídia e Cotidiano – ISSN 2178-602X ________________________________________________________________________________________________________________ Volume 18 | Número 2 | maio-agosto de 2024 99 trocam informações sobre como “jogar o jogo algorítmico”, mas também desenvolvem formas complexas de solidariedade (Grohmann & Araújo, 2021). Dessa forma, as pessoas se redefinem como funcionários (em oposição ao discurso oficial das plataformas que as posiciona como “colaboradoras” ou “empreendedoras”) e reivindicam a dignidade que os sistemas jurídicos em seus países normalmente não lhes proporcionam (Artavia, Tristán Jiménez, Siles, & Ross, 2020). Estudar as resistências através das lentes do lo popular também poderia enfatizar as experiências cotidianas das mulheres, seus corpos, seus fluidos corporais e suas maneiras de contornar as lógicas dominantes de dataficação para seu prazer. Concordando com Nanda e Nadège (2017), a experiência do corpo e do ancestral são pontos de partida ideais para a compreensão da relação com a tecnologia e com os outros. Considerações do corpo em estudos críticos de algoritmos tendem a se concentrar em questões de representação. Defendemos ampliar esta abordagem contemplando também a relação das pessoas com os algoritmos como uma experiência corpórea, ou seja, como vivida, expressa e resistida no e através do corpo. In-betweenness (Intermediação) Finalmente, a noção de lo popular enfatiza como as pessoas reproduzem e resistem a formas de dominação. Essa é uma chave para examinar a relação das pessoas com os algoritmos. Em sua essência, o conceito de mediações convida a uma consideração de espaços “entre” ou, como Rincón e Marroquín (2019) colocaram, “a ocorrência simultânea de resistência e cumplicidade, desafio e obediência, questões ancestrais e modernas” (p. 46, grifo nosso). Subjacente a essa abordagem está uma concepção de agência como inerentemente ambígua e fluida, isto é, como impossível de reduzir a uma única posição (seja a reprodução da estrutura ou sua constante mudança). Nas palavras de Martín-Barbero (1988), resistência e submissão estão “entrelaçadas” (p. 462) ou emaranhadas no popular. A agência está sempre e simultaneamente entre espaços, posições e mundos. Martín-Barbero (1993) operacionalizou esta abordagem analisando os melodramas no cotidiano latino-americano. Em uma língua althusseriana, ele viu nos melodramas “o selo da hegemonia [. . .] em ação, precisamente na construção de um apelo que fala às pessoas fora das condições familiares do cotidiano” (p. 218). No entanto, para Martín-Barbero (1993), os melodramas e a televisão também permitiram Rumo a uma Teoria Popular de algoritmos Mídia e Cotidiano – ISSN 2178-602X ________________________________________________________________________________________________________________ Volume 18 | Número 2 | maio-agosto de 2024 100 que “o povo como massa se reconhecesse como autor de sua própria história [e] fornecesse uma linguagem para ‘as formas populares de esperança’” (p. 240). Desta forma, ele partiu de uma visão de agência como uma condição de tudo ou nada, posicionando as mediações como um espaço onde as pessoas poderiam promulgar tanto a dominação quanto a resistência, tanto obedecer quanto consentir. Da mesma forma, García Canclini (1988) postulou a noção de “transação” para investigar como essas tensões e contradições foram resolvidas na prática. Uma “transação” refere-se a “um momento de luta política, onde a cultura tradicional e as estruturas sociais e políticas contemporâneas entram em jogo e revelam acomodação, aceitação passiva e exploração, bem como momentos de resistência e invenção” (Huesca & Dervin, 1994, pp. 60–61). García Canclini (1989) elaborou essa questão em sua discussão sobre a cultura latino-americana como resultado de tensões entre tradição e modernidade, “alta cultura” e “baixa cultura”. Nesta visão, as práticas populares sempre expressam múltiplas temporalidades. O trabalho fundamental de Gloria Anzaldúa (1987) sobre a “nova mestiça” (new mestiza) articulou ideias semelhantes. Com base na língua náuatle, ela cunhou o termo "nepantla" para referir-se a um espaço "intermediário" de liminaridade e transformação temporal e espacial. Assim, ela considerava as pessoas que vivem em vários mundos como "nepantleras". Anzaldúa elaborou sobre as possibilidades de habitar e participar simultaneamente de vários mundos. As contradições de viver em múltiplas culturas e grupos são vivenciadas no que ela chamou de Borderlands. Em tais espaços liminares, as pessoas adquirem capacidades para transformar os mundos que habitam sem serem reduzidas a nenhum deles ou sem terem que se inscrever em uma única identidade. A localização da agência “intermediária” desafia a maneira como os estudiosos conceberam a relação das pessoas com os algoritmos. Com base em Foucault e Latour, os pesquisadores imaginaram o poder como mesclado e produzido por meio de redes ou conjuntos de atores, instituições e tecnologias (Bucher, 2018). No entanto, à medida que analisam as operações destes agenciamentos, são os algoritmos que aparecem como atores e humanos que, em sua maioria, se tornam os destinatários dessa distribuição de poder. Couldry e Mejias (2019) sustentaram assim que a dataficação implica uma perda da autonomia humana na medida em que invade e corrói as condições em que o eu se forma – ou o que eles chamam de “o espaço do eu” (p. 155). Rumo a uma Teoria Popular de algoritmos Mídia e Cotidiano – ISSN 2178-602X ________________________________________________________________________________________________________________ Volume 18 | Número 2 | maio-agosto de 2024 101 Da mesma forma, as abordagens mais dominantes tendem a reduzir as capacidades de ação das pessoas a um conjunto específico de identidades definidas para eles por meio de procedimentos algorítmicos. Explorar espaços e mundos “intermediários” de agência pode informar análises da relação usuário-algoritmo, enfatizando como os indivíduos podem simultaneamente resistir, cumprir, desafiar e obedecer a algoritmos em suas vidas diárias (Siles, 2023). Estudos críticos de algoritmos que se basearam no modelo clássico de codificação/decodificação de Stuart Hall para enquadrar essa relação procuraram fazer uma afirmação semelhante (Cohn, 2019). A premissa subjacente nesses estudos é que o relacionamento dos usuários com algoritmos é melhor enquadrado como uma interação de comunicação. Por mais útil que tenha sido, quando os estudiosos aplicaram o modelo de Hall ao caso dos algoritmos, eles também tenderam a reproduzir uma visão de agência como uma capacidade "ou/ou". Consequentemente, eles normalmente atribuíram pessoas a formas únicas de algoritmos de "leitura". Além disso, estudos que adotaram esta abordagem muitas vezes minimizam outras partes do trabalho de Hall que estão mais próximas do trabalho latino-americano sobre lo popular. O próprio Hall observou que "o estudo da cultura popular continua mudando entre [. . .] dois pólos bastante inaceitáveis: 'autonomia' pura ou encapsulamento total" (2016, p. 232) e recusou-se a reduzir a sua posição a qualquer um deles. Como alternativa, Hall enfatizou noções de contradições inerentes, luta constante, processo contínuo, e o que ele chamou de “aposta dupla” ou “o duplo movimento” entre contenção e resistência que molda a cultura popular a partir de dentro (Hall, 2016, p. 232). Hall (2016) assim concluiu: “Há alguma parte de ambas essas alternativas dentro de cada um de nós” (p. 239). Com base nessas ideias, argumentamos que as pessoas podem adotar simultaneamente diferentes posições quando se relacionam com plataformas algorítmicas (ou seja, podem seguir, negociar e resistir a algoritmos ao mesmo tempo). Examinar esta capacidade na prática é um desafio, porém ainda mais necessário no caso dos algoritmos. As plataformas algorítmicas complicam “a marca da hegemonia”, como afirma Martín-Barbero, na medida em que os algoritmos não apenas oferecem conteúdo para as pessoas se reconhecerem, mas também se adaptam constantemente ao comportamento das pessoas. Empiricamente, isso requer revelar as ambiguidades das ações das pessoas em relação aos algoritmos. Também convida a uma análise mais Rumo a uma Teoria Popular de algoritmos Mídia e Cotidiano – ISSN 2178-602X ________________________________________________________________________________________________________________ Volume 18 | Número 2 | maio-agosto de 2024 102 aprofundada das “transações” com e através de algoritmos que criam e resolvem espaços de ambiguidade, ou seja, que são “resolvidos” na prática pelo constante “reajuste” de pessoas e algoritmos (García Canclini, 1988). De volta às reflexões de Anzaldúa, estabelecer uma relação com os algoritmos pode ser visto como um meio de wordling ou encenar o mundo de maneiras que tornam certas realidades naturais (Omura, Otsuki, Satsuka, & Morita, 2018). Um estudo sobre o uso do Spotify na Costa Rica ilustra este ponto. Enquanto a plataforma extraía e explorava seus dados, os usuários também implementavam seus algoritmos para negociar o pertencimento tanto no Norte quanto no Sul Global (Siles et al., 2020). Os usuários “forçaram” os algoritmos a cumprir as regras locais de interação social e comportamento público (e, portanto, os rejeitaram quando não o fizeram) e os consideraram um meio de participar de conversas globais sobre música e tecnologia (e foram, portanto, abraçados como uma tecnologia de proximidade com o Norte Global). Reduzir a discussão a qualquer uma dessas posições, em vez de seu desempenho simultâneo, não conseguiria fornecer um relato apropriado de como a experiência do local e do global estão entrelaçadas em mediações algorítmicas. Conclusão Neste artigo, defendemos a transcendência da noção de efeitos algorítmicos universais. Como alternativa, oferecemos ferramentas conceituais para substituir a “generalização constante das implicações do big data” (Silva, 2019, p. 86) nos suis epistêmicos por investigações empíricas de mediações algorítmicas centradas em práticas culturais lúdicas, imaginação, resistência e intermediação (in-betweenness) na vida cotidiana. Como a maioria de nossos guias teóricos e exemplos vem do domínio da mídia e das comunicações, pensamos que nossa abordagem poderia ser aplicada de forma produtiva a várias plataformas algorítmicas no domínio da cultura. Alguns trabalhos que citamos sugerem que também poderia ser útil no exame das experiências dos trabalhadores na chamada gig economy. Pesquisas adicionais podem revelar até que ponto o financiamento ou a governança de sistemas automatizados também podem ser examinados através de uma lente popular. Análises decoloniais recentes tornaram visível a tendência na pesquisa acadêmica ocidental de “falar sobre contextos latino-americanos [em vez de] integrar o trabalho de dentro deste contexto regional às realidades intelectuais” (Ganter & Rumo a uma Teoria Popular de algoritmos Mídia e Cotidiano – ISSN 2178-602X ________________________________________________________________________________________________________________ Volume 18 | Número 2 | maio-agosto de 2024 103 Ortega, 2019, p. 69). Ao unir trabalhos sobre lo popular e estudos críticos de algoritmos, buscamos fornecer ferramentas conceituais que pudessem ajudar a pensar e teorizar as realidades da dataficação tanto nos suis epistêmicos quanto além deles. Este artigo reuniu duas tradições de pesquisa que mal estiveram em diálogo. A maioria das pesquisas sobre o popular tem se dedicado ao estudo de práticas em relação aos principais meios de comunicação ou produtos culturais. Apesar de sua importância para o desenvolvimento da teoria na América Latina, este corpo de trabalho raramente foi dedicado ao estudo das mídias digitais (ver Scolari, 2015 para uma exceção). Alguns autores argumentam que isto é um produto da ênfase da teoria em processos simbólicos (mediações) e não materiais (mídia) (Siles, Espinoza-Rojas & Méndez, 2019). Comparativamente, menos estudos de mediações algorítmicas foram realizados em contextos como a América Latina e o Sul Global (Silva, 2019). Como argumentam Rincón e Marroquín (2018), a contribuição da América Latina para o estudo das mediações (algorítmicas) é que “a comunicação é uma questão de re- cognição e não de cognição [...] [uma visão do] popular [como] aquilo [que] é saboroso e carnal, de conto e humor, que não poupa emoções” (p. 80). Em algoritmos, essa abordagem também enfrenta um objeto de estudo pouco explorado e desafiador. Nesse contexto, os estudos críticos de algoritmos oferecem um complemento valioso para reconhecer o papel constitutivo que os algoritmos passaram a desempenhar na ordenação do mundo e dos fenômenos culturais (Beer, 2013; Bucher, 2018). Assim, ao explorar suas interseções, expandimos as premissas das teorias latino-americanas sobre lo popular, incorporando os principais insights do trabalho empírico sobre formações algorítmicas, ao mesmo tempo em que superamos a “tendência de excluir a erudição proveniente de fora [do Norte Global]” (Ganter & Ortega, 2019, p. 82) em estudos de dataficação e tecnologias de mídia. Estabelecer diálogos entre lo popular e os estudos críticos de algoritmos não foi concebido como um exercício puramente intelectual. Argumentamos que isso poderia gerar diferentes maneiras de imaginar questões relativas à mediação algorítmica que revelam o significado do popular como parte fundamental das operações de conjuntos de dados (data assemblages) hoje em dia. Acreditamos também que isso poderia abrir oportunidades metodológicas que podem enriquecer a compreensão empírica da relação entre usuário e algoritmo em contextos culturais específicos. Rumo a uma Teoria Popular de algoritmos Mídia e Cotidiano – ISSN 2178-602X ________________________________________________________________________________________________________________ Volume 18 | Número 2 | maio-agosto de 2024 104 Referências ALABARCES, P. Transculturas pospopulares: el retorno de las culturas populares en las ciencias sociales latinoamericanas. Cultura y Representaciones Sociales, v. 7, n. 13, p. 7-39, 2012. ANZALDÚA, G. Borderlands/La frontera: The new mestiza. San Francisco: Spinsters/Aunt L., 1987. ARTAVIA, L.; TRISTÁN JIMÉNEZ, L.; SILES, I.; ROSS, I. Plataformas digitales y precarización laboral en Costa Rica: el caso de Uber y repartidores. San José: Fundación Friedrich Ebert América Central, 2020. BAR, F.; WEBER, M. S.; PISANI, F. Mobile technology appropriation in a distant mirror: baroquization, creolization, and cannibalism. New Media & Society, Thousand Oaks, v. 18, n. 4, p. 617-636, 2016. DOI: 10.1177/1461444816629474. BARRENECHE, C.; BERMÚDEZ, A. 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