- 1 - - 2 - Comitê Científico Alexa Cultural Presidente Yvone Dias Avelino (PUC/SP) Vice-presidente Pedro Paulo Abreu Funari (UNICAMP) Membros Alexandre de Oliveira (IFS – Estância/SE) Alfredo González-Ruibal (Universidade Complutense de Madrid - Espanha) Ana Paula Nunes Chaves (UDESC – Florianópolis/SC) Barbara M. Arisi (UNILA – Foz do Iguaçu/PR) Benedicto Anselmo Domingos Vitoriano (Anhanguera – Osasco/SP) Carmen Sylvia de Alvarenga Junqueira (PUC/SP – São Paulo/SP) Denia Roman Solano (Universidade da Costa Rica - Costa Rica) Débora Cristina Goulart (UNIFESP – Guarulhos/SP) Diana Sandra Tamburini (UNR – Rosário/Santa Fé – Argentina) Edgard de Assis Carvalho (PUC/SP – São Paulo/SP) Estevão Rafael Fernandes (UNIR – Porto Velho/RO) Evandro Luiz Guedin (UFAM – Itaquatiara/AM) Fábia Barbosa Ribeiro (UNILAB – São Francisco do Conde/BA) Fabiano de Souza Gontijo (UFPA – Belém/PA) Graziele Acçolini (UFGD – Dourados/MS) Iraíldes Caldas Torres (UFAM – Manaus/AM) Juan Álvaro Echeverri Restrepo (UNAL – Letícia/Amazonas – Colômbia) Júlio Cesar Machado de Paula (UFF – Niterói/RJ) Karel Henricus Langermans (ECA/USP - São Paulo/SP) Kelly Ludkiewicz Alves (UFBA – Salvador/BA) Leandro Colling (UFBA – Salvador/BA) Lucia Helena Vitalli Rangel (PUC/SP – São Paulo/SP) Luciane Soares da Silva (UENF – Campos de Goitacazes/RJ) Mabel M. Fernández (UNLPam – Santa Rosa/La Pampa – Argentina) Marilene Corrêa da Silva Freitas (UFAM – Manaus/AM) María Teresa Boschín (UNLu – Luján/Buenos Aires – Argentina) Marlon Borges Pestana (FURG – Universidade Federal do Rio Grande/RS) Miguel Angelo Silva de Melo - (UPE - Recife/PE) Odenei de Souza Ribeiro (UFAM – Manaus/AM) Paulo Alves Junior (FMU – São Paulo/SP) Raquel dos Santos Funari (UNICAMP – Campinas/SP) Renilda Aparecida Costa (UFAM – Manaus/AM) Roberta Ferreira Coelho de Andrade (UFAM - Manaus/AM) Sebastião Rocha de Sousa (UEA – Tabatinga/AM) Thereza Cristina Cardoso Menezes (UFRRJ – Rio de Janeiro/RJ) Vanderlei Elias Neri (UNICSUL – São Paulo/SP) Vera Lúcia Vieira (PUC – São Paulo/SP) Wanderson Fabio Melo (UFF – Rio das Ostras/RJ) Comissão Editorial da Obra Adailton da Silva (UFAM – Benjamin Constant/AM) Alexandre Oliveira (IFS – SE) Ana Cristina Alves Balbino (UNIP – São Paulo/SP) Carlos José Trindade da Rocha (UFPA – Belém/PA) Lilian Marta Grisolio (UFC – Catalão/GO) Michel Justamand (UNIFESP – Guarulhos/SP) Patrícia Sposito Mechi (UNILA – Foz do Iguaçu/PR) Raimundo Dejard Vieira (UFAM – Parintins/PPGSCA) Rita de Cássia Andrade Martins (UFJ – Jataí/GO) Roberto Ramos Santos (UFRR – Boa Vista/RR) Tharcisio Santiago Cruz (UFAM – Benjamin Constant/AM) Vânia Cristina Cantuário de Andrade (UFAM – Manaus/PPGSCA) Walter Marcos Knaesel Birkner (UNIASSELVI/SC) - 3 - Alexandre de Oliveira Michel Justamand Raimundo Dejard Vieira (Organizadores) Amazônia Dissidente Volume 2 - 4 - UNIVERSIDADE FEDERAL DO AMAZONAS CONSELHO EDITORIAL Presidente Henrique dos Santos Pereira Membros Antônio Carlos Witkoski Domingos Sávio Nunes de Lima Edleno Silva de Moura Elizabeth Ferreira Cartaxo Spartaco Astolfi Filho Valeria Augusta Cerqueira Medeiros Weigel COMITÊ EDITORIAL DA EDUA Louis Marmoz Université de Versailles Antônio Cattani UFRGS Alfredo Bosi USP Arminda Mourão Botelho Ufam Spartacus Astolfi Ufam Boaventura Sousa Santos Universidade de Coimbra Bernard Emery Université Stendhal-Grenoble 3 Cesar Barreira UFC Conceição Almeira UFRN Edgard de Assis Carvalho PUC/SP Gabriel Conh USP Gerusa Ferreira PUC/SP José Vicente Tavares UFRGS José Paulo Netto UFRJ Paulo Emílio FGV/RJ Élide Rugai Bastos Unicamp Renan Freitas Pinto Ufam Renato Ortiz Unicamp Rosa Ester Rossini USP Renato Tribuzy Ufam Reitor Sylvio Mário Puga Ferreira Vice-Reitora Therezinha de Jesus Pinto Fraxe Editor Sérgio Augusto Freire de Souza - 5 - Embu das Artes - SP 2021 Alexandre de Oliveira Michel Justamand Raimundo Dejard Vieira (Organizadores) Amazônia Dissidente Volume 2 - 6 - © by Alexa Cultural Direção Gladys Corcione Amaro Langermans Nathasha Amaro Langermans Editor Karel Langermans Capa João Bosco Leite Revisão Técnica Alexandre de Oliveira e Michel Justamand Revisão de língua Vânia Cristina Cantuário de Andrade Editoração Eletrônica Alexa Cultural Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) A489 Amazônia dissidente: volume 2 / Organizadores Michel Justamand, Alexandre Oliveira, Raimundo Dejard Vieira . – Embu das Artes, SP: Alexa Cultural; Manaus, AM: Edua, 2021. 258 p. : il. ; 14 x 21 cm – (Amazônia Dissidente; v. 1) Inclui bibliografia ISBN 978-65-89677-46-8 1. Antropologia. 2. Ciências sociais. 3. Sociologia. I. Justamand, Mi- chel. II. Oliveira, Alexandre. III. Andrade, Vânia Cristina Cantuário de. IV. Série. CDD 306 Elaborado por Maurício Amormino Júnior – CRB6/2422 Índices para catálogo sistemático: Antropologia Ciências Sociais Todos os direitos reservados e amparados pela Lei 5.988/73 e Lei 9.610 Os artigos publicados são de inteira responsabilidade de seus autores. As opiniões neles emitidas não exprimem, necessariamente, o ponto de vista da editora e dos organizadores Alexa Cultural Ltda Rua Henrique Franchini, 256 Embú das Artes/SP - CEP: 06844-140 alexa@alexacultural.com.br alexacultural@terra.com.br www.alexacultural.com.br www.alexaloja.com Editora da Universidade Federal do Amazonas Avenida Gal. Rodrigo Otávio Jordão Ramos, n. 6200 - Coroado I, Manaus/AM Campus Universitário Senador Arthur Virgilio Filho, Centro de Convivência – Setor Norte Fone: (92) 3305-4291 e 3305-4290 E-mail: ufam.editora@gmail.com - 7 - Nós dirigentes da coleção, partícipes da comissão editorial da obra, organizadores, autoras e autores: homenageamos a todas, todes e todos que, infelizmente, morreram em batalha contra a COVID-19 na tríplice fronteira amazônica (Brasil, Colômbia e Peru), na região do Alto Solimões, no Amazonas, no Brasil e em outras partes do mundo. Nos solidarizamos com as famílias desses, que partiram, sem nenhuma, necessidade! In memorian A Thereza Antonieta Tomio mãe de Michel Justamand. - 8 - - 9 - Didática em transformação Ianeis De Jesus Da Silva Xavier I Terra boa, se plantando, tudo dá Impondo com seu olhar sem do índio perguntar, Pero Vaz de Caminha, começou analisando, Já era o autoritarismo da elite despontando. II Degredados assassinos tornaram-se professores dos nativos inocentes, “bugres e sem valores”, ditos assim pelos alienígenas, estrangeiros e invasores. III Padres, frades, catequizadores, os mentores do autoritarismo do momento. É quem ditava as regras de todo o conhecimento, passaram a alienar com falsa desculpa então, escravizando o nativo, em nome de um perdão, começando a importar um meio de educação. IV No Brasil colonial, terra de escravos e senhores, só os que tinham dinheiro, tornar-se iam doutores, estudando na Europa, em Coimbra de valores. Voltando para o Brasil, passavam a ensinar que o estudo do escravo e pobre é somente trabalhar, dormir tarde e acordar cedo e os ricos amamentar. V A educação autoritária tornou-se crônica, letal, pois no terceiro milênio é vergonha nacional, que o povo brasileiro seja ainda analfabeto e ainda se acha esperto com “o jeitinho brasileiro” que para o estrangeiro só é bom no carnaval. - 10 - VI Hoje, a educação tomou rumo liberal, embora seja um disfarce, um engodo natural, vindo de sistemáticos do Congresso Nacional. VII O neoliberalismo chegou na educação, mas os interesses burgueses são ainda a questão, são a elite e o governo e as formas de opressão, chamadas, currículos, ocorrências, teste de avaliação, prende, oprime, sacoleja, não se pede opinião, se o aluno acha pouco, tem que fazer o provão. VIII Se na escola autoritária a palmatória impera, na escola liberal não se dá vez à favela, porque do capitalismo a elite se apodera. IX Os recursos financeiros, a situação social sobrepuja os mais pobres, na educação liberal, a educação passa, então, por um problema social, em que a concorrência é abafada pelo real. X A universidade, a escola se tornam um campo de guerra e é na mola do dinheiro que o aluno sobe a serra. Vem do campo, vem da luta da escala social, e quem decide a ação coletiva são todos, diferente da liberal. XI Vem das organizações de classes, embora pareça utopia, a educação libertadora com povo se inicia. Todos têm voz e vez de interferir na ação, a estratégia é o diálogo e a participação. É o interesse da maioria que impera, desmascarando os conflitos individuais que nos “emperra”. - 11 - XII O diálogo sobre os problemas é a base da aprendizagem, a teoria surge da prática, dando verdade à mensagem. A libertadora recupera a teoria esvaziada pela autoritária, diálogo e intenções isoladas pela liberal, adquirem e promovem um sentido social. XIII Na educação libertadora, a avaliação é contínua, que lentamente promove um complexo avanço e não termina. A liberal e autoritária concorrem para a exploração social, enquanto a libertadora se contrapõe no geral, desenvolvendo as relações críticas e participativas, favorecendo as organizações populares em suas lutas de libertação ativa. XIV Temos via satélite todo tipo de educação, do Fax ao computador, a total globalização. Informação, conhecimento, tudo que a vida promete nos vem por terra, água, ar e agora pela internet. XV Um mundo novo se descobre em que o indivíduo em geral, mesmo sendo rico ou pobre, sofre fusão cultural. - 12 - - 13 - PREFÁCIO Tharcísio Santiago Cruz1 A academia é um lugar que desperta o desejo de veiculação de ideias, acesso a literatura, arte, poesia, manifestos, protestos e em al- gumas situações “dissidência”, no sentido de elocubração e exposição de outras perspectivas de dizeres e alternativas de interpretação da reali- dade. Com base nessa perspectiva, de que ideias podem ser mate- rializadas e levadas ao conhecimento de um público maior. Dentre al- gumas possibilidades, destaca-se o exercício realizado sobre conteúdos ministrados nas disciplinas de pós-graduação, em Sociedade e Cultura da Amazônia – PPGSCA, os professores Alexandre de Oliveira e Michel Justamand investiram numa vertente de discussão sobre o “pensamento dissidente”. Este volume, caracteriza o esforço e iniciativa de produção acadêmica e discussão sobre a Amazônia e outros lugares da América do Sul, com base em perspectiva de discussão dessa ordem. Trata-se de vertente, que une, a vasta contribuição de autores que discutiram a Amazônia e América, a partir da contribuição teórica das ciências so- ciais, como: Maurício Tragtenberg, Marcio Souza, Marilene Correa da Silva, Dejard Vieira e Neide Gondim, bem como, de teóricos que ajuda- ram a consolidar as ciências humanas, como Norbert Elias e Stuart Hall. Estes e diversos outros autores foram trazidos e rediscutidos, sob a perspectiva dissidente presente em colaborações de diversas or- dens, tais como, a problemática ambiental sob a égide do imaginário sociocultural existente na região, as influências do período de extração e produção da borracha e ligações com o posterior processo de indus- trialização na cidade de Manaus. Alia-se a essa discussão, debates apre- sentados do livro sobre a Sociologia do Lazer, com isto, uma rediscussão sobre a temática do “tempo livre”, no seio de sociedades industrializadas em plena Amazônia algo que merece reflexão. No âmbito de possibilidades discursivas sobre trabalho, pro- dução fabril e lazer, é apresentado nesse volume, análise sobre o traba- 1 Doutor em Antropologia pelo Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social – PP- GAS, da Universidade Federal do Amazonas – UFAM e é Docente do Curso de Antropologia, do Instituto de Natureza e Cultura – INC, da mesma instituição, na unidade acadêmica do Alto Solimões, em Benjamin Constant/AM. - 14 - lho em área rural da cidade de Parintins, precisamente no lugar deno- minado de “São Sebastião da Brasília”, algo que demonstra a amplitude de possibilidades discursivas sobre trabalho na Amazônia. No transitar por estes textos, o leitor está sendo preparado para adentrar em debates dissidentes sobre as temáticas, “ negras e indí- genas”. No sentido, de debate sobre o locus dissidente trazido para que possamos rediscutir a diáspora africana, numa atualização de leituras e inserções de atores sociais que lidam com a amplitude de releituras sobre África, negros e negras, bem como sobre o “corpo negro” e a arte de rua no âmbito de alternativas de emancipação política e cultural em meio as performances de rua e em outros espaços. Deste modo, em ou- tra instigante leitura o imaginário é trazido, prefigurado no universo da arte parintinense como alicerce de mitos e lendas no conjunto de representações artísticas. De forma a ampliar a leitura sobre a temática negra, é oportu- nizada a abordagem e contribuição apresentada sobre o currículo esco- lar a partir da “Amazônia Quilombola”, a educação é apresentada, como campo vasto de atuação, possibilidades, pedagógicas e literárias, os au- tores deste livro, adentram em incursões resultantes de suas produções acadêmicas, pesquisas e militância na temática da educação e indígena, no âmbito de “observações e narrativas”, que parte de suas realidades são mostradas e debatidas. Vale destacar, a contribuição da militância e dissidência indí- gena, ao tratar da afirmação e paralelamente negação “dos direitos in- dígenas”, materializados nas diversas situações de agressões e violências praticadas contra os povos originários. Trata-se de um debate dissiden- te de longa data, parte do tratamento desrespeitoso cujo conteúdo de denúncias, falas de personagens, encontra-se presente no relatório da Comissão da Verdade – CNV, conforme um dos emblemáticos capítulos do livro. De modo a contribuir com a perspectiva dissidente, seus au- tores (as), adentram no universo de ressignificação do espaço escolar”, de forma a trazer para a leitura a abrangência do alcance de práticas educativas direcionadas à diversidade do público amazônico, e com isso constituindo espaços centrais de sociabilidades que são compartilhados por povos grupos e indivíduos. No cerne dessa possibilidade de discussão a educação esta li- gada ao “contexto capitalista” que inevitavelmente experienciam subli- - 15 - minares metamorfoses, essa é uma das temáticas que oportuniza a per- cepção da educação em meio ao contexto socioeconômico neoliberal e os efeitos da reestruturação produtiva. O livro Amazônia Dissidente, além das várias temáticas dis- cutidas, é também um convite a leitura sobre temas que se tornaram por demais presentes em nossas vidas, em diversos lugares e ambientes no qual atuamos. Trata-se das inúmeras situações de adoecimentos, oca- sionados pela pandemia conhecida como Coronavirus (SARS), presente em todo o planeta, cujos efeitos tornaram-se dramáticos no Amazonas, principalmente sob os segmentos populacionais mais carentes e desas- sistidos pelo Estado. Em meio aos efeitos do adoecimento por conta do Covid, alia-se o fenômeno das fakes News, alimentando a confusão, colaborando com alinhamento aos interesses de determinados grupos de poder, esses temas, resultara, em pesquisas e produção científica que hora encontramos neste volume sob o olhar dissidente de seus autores (as). O debate dissidente não se finda neste volume, esta perspec- tiva tem motivado outros autores a trazer seus temas e pesquisas, sob esta experiencia motiva a laboração de outros volumes estão sendo or- ganizados e em breve estarão à disposição dos leitores. Trata-se neste volume, de leitura que transcende os espaços acadêmicos e oportuniza a experiência de tratar as questões sociais e humanas pelo olhar que diverge. - 16 - - 17 - SUMÁRIO POESIA - DIDÁTICA EM TRANSFORMAÇÃO Ianeis de Jesus da Silva Xavier 9 PREFÁCIO Tharcísio Santiago Cruz 15 APRESENTAÇÃO SUPERANDO A CORRIDA ATRÁS DO PRÓPRIO RABO OS DISSIDENTES AMAZÔNICOS VOL. 2 Alexandre Oliveira, Michel Justamand e Raimundo Dejard Vieira 23 BLOCO I - DISSIDÊNCIAS TEÓRICAS Cap. 1 A PROBLEMÁTICA AMBIENTAL NO IMAGINÁRIO DO AMAZÔNIDA Ana Karen da Silva Sales Tavares e Michel Justamand 29 Cap. 2 DESENVOLVIMENTO URBANO EM MANAUS DURANTE O PERÍODO DO CICLO DA BORRACHA À INDUSTRIALIZAÇÃO Angélica de Matos Carvalho e Evandro de Morais Ramos 41 Cap. 3 A SOCIOLOGIA DO LAZER Daniele de Souza Colares Tavares e Alexandre Oliveira 51 - 18 - Cap. 4 O PRINCÍPIO FEMININO NOS MITOS E LENDAS E AS REPRESENTAÇÕES ARTÍSTICAS NOS BUMBÁS DE PARINTINS Raimunod Dejard Vieira e Alexandre de Oliveira 65 Cap. 5 AMAZÔNIA: DEMOCRACIA EM TEMPOS DE FAKE NEWS Simone Costa de Lima, Ana Cristina Alves Balbino Robson França Francisco Rodrigues e Odenei de Souza Ribeiro 83 BLOCO II - NEGRITUDE DISSIDENTE Cap. 6 AMAZÔNIA QUILOMBOLA: A LUTA POR UMA NOVA PERSPECTIVA EDUCACIONAL Cynthia Maria Bindá Leite e Lilian Marta Grisolio 101 Cap. 7 O CORPO NEGRO COMO UM CORPO POLÍTICO E SUA EMANCIPAÇÃO SOCIAL ATRAVÉS DAS MANIFESTAÇÕES ARTÍSTICAS E CULTURAIS Lucas Lopes da Silva Aflitos e Renilda Aparecida Costa 115 BLOCO III – EDUCAÇÃO DISSIDENTE Cap. 8 DISCENTE AMIGO: RESSIGNIFICANDO O ESPAÇO ESCOLAR Jackeline Mendes de Souza e Marilene Corrêa da Silva Freitas 133 Cap. 9 AS METAMORFOSES DA EDUCAÇÃO DIANTE DO CONTEXTO CAPITALISTA Janaína Zildeia da Silva Paiva e Elenise Faria Scherer 145 - 19 - Cap. 10 O NOVO CORONA VÍRUS, A EDUCAÇÃO AMAZÔNICA E O LIVRO DIDÁTICO Marcos Afonso Dutra e Artemis de Araújo Soares 159 BLOCO IV – DISSIDÊNCIA INDÍGENA Cap. 11 POR UM OBJETO DE ESTUDO DISSIDENTE. OBSERVAÇÕES SOBRE A AFIRMAÇÃO INDÍGENA, SUJEITOS ETNOGRÁFICOS E NARRATIVAS Denia Román Solano 175 Cap. 12 ANÁLISE DA DISSIDÊNCIA INDÍGENA PRESENTE NAS DENÚN- CIAS SOBRE MASSACRES NO RELATÓRIO DA COMISSÃO DA VERDADE – CNV Ianeis de Jesus da Silva Xavier, Patrícia Sposito Mechi e Michel Justamand 193 Cap. 13 A NEGAÇÃO DOS DIREITOS CONSTITUCIONAIS E A VIOLÊN- CIA CONTRA OS POVOS INDÍGENAS APRESENTA EVIDÊNCIAS DE GENOCÍDIO NO GOVERNO BOLSONARO – PARTE II Silvio Cavuscens 205 Posfácio DISSIDÊNCIA COMO ATO DE (RE)ENCANTO, RESISTÊNCIA, INSISTÊNCIA NA AMAZÔNIA Carlos José Trindade da Rocha 236 SOBRE AS/OS AUTORES/AS 239 - 20 - SUGESTÕES DE LEITURAS Coleção Sociedade e Cultura na Amazônia Iraíldes Caldas Torres e Marilene Correa 245 Coleção FAAS Dirigida por Gilse Elisa Rodrigues e Michel Justamand 246 Coleção FAAS – teses Dirigida por Adaílton da Silva e Michel Justamand 248 Coleção Arte Rupestre Dirigida por Gabriel Oliveira e Michel Justamand 249 Coleção Diálogos Interdisciplinares Dirigida por Josenildo Souza e Michel Justamand 250 Coleção Tabatinga Ticuna Maria Auxiliadora Coelho Pinto e Michel Justamand 252 - 21 - APRESENTAÇÂO SUPERANDO A CORRIDA ATRÁS DO PRÓPRIO RABO – OS DISSIDENTES AMAZÔNICOS VOL. 2 Alexandre Oliveira1 Michel Justamand2 Raimundo Dejard Vieira3 Nós, Alexandre Oliveira, Michel Justamand e Raimundo De- jard Vieira, organizadores da obra Dissidentes Amazônicos, temos o prazer de tornar público o segundo volume da obra AMAZÔNIA DIS- SIDENTE. Na apresentação do primeiro volume tivemos oportunidade de tratar da história, desdobramentos e motivos da construção deste empreendimento. Lá também apresentamos as relações entre os capí- tulos. Assim, partiremos do princípio de que as/os leitoras/es po- dem ter acesso àquela apresentação e obter as nossas ideias e reflexões que são indissociáveis as duas partes. Na parte inaugural eram três or- ganizadores também, mas a Vânia Cristina Cantuário de Andrade deu lugar a Raimundo Dejard, nessa edição. Assim, podemos iniciar as apresentações e as relações entre os capítulos desse tomo, tanto quanto o anterior, com 13 temas e suas reflexões dissidentes e amazônicas. Destacamos que os temas foram divididos em 04 blocos de debates de ideias e os devidos aprofundamentos das questões que lhes são pertinentes: 1 – Teóricas; 2 – Negritude; 3 – Educação e, por fim, 4 – Indígena. Esses estudos trazem em suas escritas, preocupações que 1 Doutor em Design pela PUC-Rio. Professor do Ensino Básico, Técnico e Tecnológico, no Instituto Federal de Sergipe – IFS e Professor Permanente do Programa de Pós-Graduação em Sociedade e Cultura na Amazônia – PPGSCA, da Universidade Federal do Amazonas – UFAM e no Mestrado em Educação Profissional e Tecnológica – ProfEPT do Instituto Federal de Rondônia. Email: olialx@gmail.com 2 Doutor em Ciências Sociais/Antropologia pela Pontifícia Universidade Católica de São Pau- lo – PUC/SP; Professor Associado II do Curso de História da Arte, da Universidade Federal de São Paulo – UNIFESP, em Guarulhos, e Professor Permanente do Programa de Pós-Graduação em Sociedade e Cultura na Amazônia – PPGSCA, da Universidade Federal do Amazonas – UFAM. Email: micheljustamand@yahoo.com.br 3 Doutorando do Programa de Pós-Graduação em Sociedade e Cultura na Amazônia – PPGS- CA, da UFAM. Email: dejardvieira@yahoo.com.br - 22 - as Ciências Humanas, em geral, têm enfrentado no mundo atual. Como o feminismo, a questão negra e indígena no país, a democracia, o meio ambiente, o urbano, o lazer, as variadas facetas da educação. Sem es- quecer, temas presentes nas redes sociais, culturais e políticas, como as Fakenews e a mais recente pandemia mundial. Sendo por esse prisma, a nosso modesto ver, essa é uma obra que poderá contribuir com outras, sobre questões socioculturais locais e além. A obra não se furta a ser dissidente nas suas proposituras de ideias e, claro, amazônida nas abordagens de suas temáticas e objetos de pesquisas regionais. Então, vejamos... O bloco inicial é composto de 05 textos com suas referên- cias, ideias e reflexões que denominamos como teóricas. Compõem esse agrupamento o texto A problemática ambiental no imaginário do Amazônida, de autoria da Ana Karen da Silva Sales Tavares e Michel Justamand; Desenvolvimento urbano em Manaus durante o período do Ciclo da Borracha à industrialização, tendo como autores Angélica de Matos Carvalho e Evandro de Morais Ramos; A Sociologia do Lazer, de Daniele de Souza Colares Tavares e Alexandre Oliveira; O princípio feminino nos mitos e lendas e as representações artísticas nos Bum- bas de Parintins, de Raimundo Dejard Vieira e Alexandre de Oliveira; e, por último, Amazônia: democracia em tempos de fake News, escrito por oito mãos Simone Costa de Lima, Ana Cristina Alves Balbino, Rob- son França Francisco Rodrigues e Odenei Ribeiro de Souza. Já o segundo grupo de 02 textos, relacionados à questão ne- gra, são Amazônia Quilombola: o currículo escolar como resultado de lutas, Cynthia Maria Bindá Leite e Lilian Marta Grisolio; e O corpo negro como um corpo político e sua emancipação social através da arte de rua e manifestações performáticas e culturais, de Lucas Lopes da Silva Aflitos e Renilda Aparecida Costa. O terceiro tema reúne três textos sobre educação. São eles o Discente Amigo: ressignificando o espaço escolar, escrito por Jackeli- ne Mendes de Souza e Marilene Corrêa da Silva Freitas; As metamorfo- ses da educação diante do contexto capitalista, de Janaína Zildeia da Silva Paiva e Elenise Faria Scherer; e, finalizando, O novo corona vírus, a educação amazônica e o livro didático, escrito por Marcos Afonso Dutra e Artemis de Araújo Soares. E como não poderíamos deixar tratar sobre a discussão das questões indígenas, por ser uma obra preocupada com questões amazô- - 23 - nicas. A região amazônica é onde se concentram a maior quantidade de culturas, etnias e povos indígenas. Logo não faltam debates e considera- ções a serem abordadas e amplificadas. Nesse último bloco temos a pre- sença de três capítulos Por um objeto de estudo dissidente. Observa- ções sobre a emergência indígena, sujeitos etnográficos e narrativas, de autoria de Denia Roman Solano; Análise da dissidência indígena presente nas denúncias sobre massacres no relatório da comissão da verdade – CNV, construído por Ianeis de Jesus da Silva Xavier, Patrícia S. Mechi e Michel Justamand; e A negação dos direitos constitucio- nais e a violência contra os povos indígenas apresenta evidências de genocídio no governo Bolsonaro – Parte II, de Silvio Cavuscens. Esse último é complementar a outro do mesmo autor presente no volume 1. Feitas as devidas apresentações das relações temáticas entre os mais diferentes textos capitulares, desejamos boa leitura a todas/es/ os! São os nossos mais sinceros votos! Os organizadores Maio de 2021 Atibaia, Parintins e Salvador - 24 - - 25 - DISSIDÊNCIAS TEÓRICAS - 26 - - 27 - A PROBLEMÁTICA AMBIENTAL E SUAS REPRESENTAÇÕES SOCIAIS PARA O AMAZÔNIDA Ana Karen da Silva Sales Tavares1 Michel Justamand2 Introdução A Amazônia é uma região que desencadeia interesses políti- cos, econômicos, geográficos e científicos. A intensificação da discussão da problemática ambiental trouxe, por sua vez, um grande debate acerca da sustentabilidade da região frente aos adventos. Neste contexto, é necessário ter um olhar direcionado aos po- vos que vivem na Amazônia no tocante à utilização dos recursos natu- rais. Sabe-se que a educação ambiental é um desafio histórico na região, especialmente nas partes que mais precisam que ela seja difundida. A dificuldade logística e o acesso, por vezes apenas fluvial, faz com que os atores amazônicos não recebam a informação adequada, favorecendo construções imaginárias equivocadas quanto à problemática ambiental. A exclusão deste indivíduo, que tem na Amazônia suas vi- vências e dela adquirem seus saberes e cultura, sobre uma questão tão abrangente abre, consequentemente, a perspectiva de criação de um imaginário coletivo acerca do tema. O modo como estes atores con- vivem com os recursos naturais e com os elementos da natureza dis- poníveis está diretamente relacionado a este aprendizado. Dado este contexto, salienta-se a ideia de não pertencimento a este todo, partindo do indivíduo que mora na região, tendo em vista a suposição de que o mesmo não tem lugar de fala. O objetivo geral desta pesquisa é compreender a Amazônia e suas significações ao longo dos anos, principalmente em relação ao meio ambiente, ao passo em que se analisam as representações sociais atribuídas a essa região, que são interpretadas pelos indivíduos que nela vivem. 1 Mestranda do Programa de Pós-Graduação em Sociedade e Cultura na Amazônia (Universi- dade Federal do Amazonas), bacharel em Comunicação Social – Jornalismo. 2 Doutor em Ciências Sociais/Antropologia pela PUC/SP e Professor Associado II, do Depar- tamento de História da Arte – DHA, na Escola de Filosofia, Letras e Ciências Humanas – EFL- CH, da Universidade Federal de São Paulo – UNIFESP, na unidade acadêmica de Guarulhos e Professor Permanente do Programa de Pós-Graduação Sociedade e Cultura na Amazônia – PPGSCA, da UFAM. - 28 - As representações sociais sobre a amazônia A existência de uma ampla literatura relacionada ao conceito de representação social criou uma variedade de definições para este fe- nômeno. Valsiner (2003), por exemplo, considera a representação social uma designação de um produto e um processo, ao mesmo tempo. Para este estudo, leva-se em consideração a definição de Jodelet (2001), que tem por representação social “uma forma de conhecimento, socialmen- te elaborada e partilhada, com um objetivo prático, e que contribui para a construção de uma realidade comum a um conjunto social” (p. 22). A região amazônica tem como características importantes fa- tores ligados ao meio ambiente e à sociedade. Neste sentido, a biodiver- sidade e a multicultura são aspectos presentes no contexto. Ao abordar as significâncias sociais na Amazônia é inevitável deixar de falar sobre a sua apropriação histórica. Ao corroborar com a ideia de Gondim (1994) em “A Invenção da Amazônia”, compreende-se que há um espaço consolidado por meio de discursos narrados por terceiros, a partir dos quais se obtém uma interpretação acerca do lugar. Logo, tem-se que desde sua populariza- ção na Europa, a partir do século XVI, iniciou-se a construção de um imaginário local do qual o nativo não teve voz. Contrariamente ao que se possa supor, a Amazônia não foi descoberta, sequer foi construída; na realidade, a invenção da Amazô- nia se dá a partir da construção da Índia, fabricada pela historiografia greco-romana, pelo relato dos peregrinos, missionários, viajantes e co- merciantes. (GONDIM, 1994, p. 9). As representações sociais sobre a Amazônia podem ser en- tendidas numa cultura e num tempo distintos, de acordo com o que afirma Moraes (1988). Isso porque a perspectiva de um pensamento so- cial envolve um indivíduo inserido em determinado tempo-espaço, que passa por um processo civilizador (ELIAS, 1990). Esse sujeito faz parte de um cenário geográfico que compreende: A complexidade do universo da consciência e do movimento dos sujeitos. A relatividade histórica e cultural do conhecimento. A ne- cessidade de não diferenciar o produtor, o produzido e o contexto de sua produção (MORAES, 1988, p. 21). Com a influência de diversos fatores externos, estejam eles relacionados ao advento dos meios de comunicação em massa ou à po- pularização das redes sociais na Internet, cria-se uma associação da re- - 29 - gião amazônica que a coloca frente aos fatores ambientais que envolvem a região. A partir de então, difunde-se esse pensamento que possibilita também que corroborem outras representações sociais. Estas últimas, por sua vez, atenuam as problemáticas existentes no espaço e se con- tradizem com a idealização de um paraíso terrestre e de um pulmão do mundo. Tratam-se, ainda assim, de questões ambientais e culturais que caracterizam um inferno verde, um vazio demográfico e cultural com cidades e populações invisíveis (ANDRADE, 2014; PORTO-GONÇAL- VES, 2017). A ideia de uma Amazônia regional e universal pode estar sendo proposta do avesso. A imposição dessa ideologia de cima para baixo tem o objetivo de diminuir, deslegitimar e criar um imaginário separatista em questões que não deveriam ser vistas dessa forma (Souza, 2007). Esses fatores também podem ser observados na Região Nor- deste. Embora o Brasil se orgulhe de ter conquistado a Amazônia, não há nada mais universal do que as características que nela e em seu povo permanecem. Características essas anteriores à conquista pelo Império, que se ressignificaram e se mantém apesar do processo civilizador que a região passou e as figurações que foram criadas. Ao pensar sob a pers- pectiva metodológica é preciso também compreender as significações e construções imaginárias criadas acerca das ideias de regional e uni- versal. Tem-se, portanto, representações sociais distintas quando a Amazônia está em debate. Elas se multiplicam especialmente quando observamos os fatores econômicos, comerciais e políticos que as en- volveram, o que torna a região uma pauta complexa e um campo de pesquisa peculiar à ciência. Todavia, o desenvolvimento das atividades econômicas ao longo dos anos se deu de modo desvinculado de uma política ambiental que acompanhasse a realidade da região, o que tor- nou a problemática ainda mais grave, alterando as dinâmicas sociais, culturais e ambientais do homem que vive no local e dos recursos natu- rais que os rodeiam (ANDRADE; CARIDE, 2016). De todo modo, é necessário fazer uma reflexão acerca da in- fluência do regionalismo na consolidação das representações sociais que caracterizam os grupos na Amazônia e influenciam a percepção da problemática ambiental no imaginário deste indivíduo. Esse processo é importante porque o regionalismo não se dá apenas no campo literário - 30 - onde “se sobressaem autores que teriam construído explicações para- digmáticas” (BASTOS; PINTO, 2007, p. 6). Embora esse campo tenha influência destacada na construção das representações sociais, enten- de-se que a percepção intrínseca das fronteiras espaciais e imaginárias, definidas pelo conceito de regionalismo exercem força sobre graduais mudanças na maneira como o nativo da Amazônia vê e pensa esse espa- ço em todos os seus aspectos. A problemática ambiental como fator externo ao indivíduo O debate sobre a questão ambiental certamente não é recente. No entanto, nas últimas três décadas do século XX esta discussão se intensificou tanto no meio acadêmico, quanto no senso comum (JAB- BOUR, 2006). Na região amazônica, historicamente a problemática am- biental é vista de diversas perspectivas, entre elas: histórica, geográfica, biológica e também sob a perspectiva socioeconômica. São narrativas em que se levam em consideração, especialmente, o local de fala do nar- rador, de modo que a oralidade praticada pelo nativo adquire diferentes apontamentos acerca da questão, quando comparada ao olhar de um ator externo à realidade amazônica. Na Amazônia, a natureza atua como uma grande mediado- ra das questões sociais, mesmo nas grandes cidades (ALMEIDA-VAL, 2006). Neste sentido, nota-se que a interpretação de uma realidade so- cial leva em consideração “as instâncias ou substitutos institucionais e as redes de comunicação informais ou da mídia intervêm em sua elabo- ração” (JODELET, 2001, p. 21). Historicamente, os índios sempre tiveram uma relação pe- culiar com a questão ambiental. Comenta Souza (2010) que algumas regiões do Brasil são consideradas possuidoras de características indí- genas mais fortes que outras: Por que Salvador pode se dizer a cidade mais negra fora da África, e Belém (PA) ou Manaus (AM) não podem se orgulhar de serem as capitais indígenas do Brasil, se em todos os casos estamos tratando de descendentes de negros e de índios, respectivamente? Porque a mentali- dade racista da sociedade (a mesma que Mércio Gomes quer perpetuar) nos informa que só são índios os que moram em aldeias na floresta ou que têm sangue puro. Assim, os manauaras e belemenses descendentes indígenas foram levados a crer que não são índios (SOUZA, 2010, p. 31). - 31 - Estes olhares enviesados podem ser atribuídos ao processo colonizador pelo qual a maioria dos indígenas passou qual seja, a perda da sua identidade étnica e social. Essa característica trouxe uma nova significação ao modo do sujeito lidar com os elementos da terra. Souza (2010) faz uma reflexão sobre como as implicações econômicas tiveram impacto no meio ambiente da Amazônia e em seu povo. Para ele, a perda de características culturais, durante o processo histórico, tem relação direta com a identidade do homem amazônico e com o espaço que o rodeia. “Sobretudo o decorrer dos últimos 50 anos, demonstra claramente a relação cultura/meio ambiente em sua forma mais desarmoniosa (SOUZA, 2010, p. 56).” Neste sentido, o autor conta que há 300 anos foi estabelecido um conflito que ameaça à integridade do “grande vale”, como se refere à região amazônica. Movidos pelas necessidades econômicas da empresa colonial, instigados pela ideologia da contrarreforma, os portugueses nos ensi- naram a ver naquilo que há de mais originário, um inimigo desprezível. [...] a cultura mais autêntica e viva da região recolheu-se para os arqui- vos etnográficos. O que era para ser esteio, viga mestra e estrada lumi- nosa, tornou-se curiosidade e folclore para especialistas. Poucos foram os que vislumbraram esse universo, a maioria preferiu a rota confortável do aniquilamento pela importação desenfreada de estética alienantes. A Amazônia índia é um anátema, um purgatório onde culturas inteiras se esfacelam no silêncio e no esquecimento (SOUZA, 2010, p. 56). A exploração comercial da Amazônia, os interesses políticos nacionais e internacionais abrem possibilidades para que a discussão ambiental esteja cada vez mais distante da realidade do homem que vive na região, como se a ele este debate não pertencesse. Este, por sua vez, elabora significados, percepções e concepções acerca da questão am- biental, a partir de uma visão externa, não relacionada às suas vivências, o que consequentemente gera uma relação peculiar com a natureza. Tem-se, portanto, que o imaginário do amazônida acerca da problemá- tica ambiental é constituído por fatores relacionados à cultura, às expe- riências vividas pelos povos “ao longo de gerações e pelos valores sociais e políticos que a sociedade impôs a tais relações” (MORAN, 1990, p. 30). Niño (1997) reitera que essa perda da identidade amazônida originária, que tinha uma relação diferenciada com o meio ambiente, está relacionada com a deficiência da produção científica e cultural que, segundo Nino, implica diretamente no desenvolvimento da comunida- - 32 - de, que se dá a partir dos próprios limites da cultura e se expressa nas formas do político e em outros âmbitos. Consequentemente, podem-se atribuir à essas mudanças a aquisição de uma consciência popular que é fundamental para a estru- turação de uma consciência própria do indivíduo acerca da quotidiani- dade (NIÑO, 1997). Pontes Filho (2017) discute os impactos da logospirataria so- bre o controle ambiental e sobre a diversidade cultural. Ao falar sobre a relação com o meio ambiente, o autor afirma que os povos da Amazônia desenvolveram, ao longo dos milênios, padrões de sobrevivência sus- tentáveis de acordo com os ecossistemas amazônicos, o que demonstra a possibilidade de relações de interdependência equilibradas ecologica- mente entre diversidade social e biológica. Além disso, o professor também trata a logospirataria como um fator que, historicamente, muda a percepção sociocultural do indi- víduo em relação ao meio ambiente (PONTES FILHO, 2017). Na prá- tica, o conceito está relacionado ao cometimento de crimes ambientais, tendo em vista o sentido histórico, social e cultural que influenciou os povos e sua tratativa com o ambiente ao seu redor. A logospirataria opera, enquanto se apropria de bens e de conhecimentos, no sentido de não reconhecer e, ao mesmo tempo, de desintegrar a diversidade de formas sociais de expressão do Logos com- plexus, o Logos heraclítico, que preserva o fogo das distintas humanida- des, dos saberes e das liberdades que lhes é inerente. A logospirataria é o processo de aniquilamento cultural; o princípio da extinção tentando impor-se; o fim da superação do caos pela supressão da liberdade e da diversidade; a física da morte. Por meio da prática e das experiências de logospirataria revela-se o antilogos – o logospirata (PONTES FILHO, 2017, p. 71). Para compreender qual papel a sociedade acredita ser desig- nado a ela em relação às práticas de controle ambiental no Amazonas é preciso fazer uma análise histórica, social e política. Silva (2004) cons- trói três recortes analíticos: a Amazônia Lusitana/Portuguesa, a Amazô- nia Indígena e a Amazônia Brasileira, de modo que segundo a autora: A Amazônia portuguesa nasce perseguida por vários dilemas. Re- forma e revolução, mercantilismo e capitalismo, absolutismo e re- pública, trabalho escravo e trabalho livre. (...) A Amazônia Indígena que antecede a Amazônia Lusitana não tem equivalência na cultura - 33 - europeia. É produto do desenvolvimento independente dos povos que ocuparam a região norte, num período de pelo menos três mil anos, antes da colonização. (...) A Amazônia Brasileira é con- tinuidade e ruptura com a Amazônia portuguesa (...). Neste hiato cronológico, é superado pela perspectiva da Amazônia brasileira, de brasileiros natos, unidos pelo mesmo solo, pela mesma língua, pelas mesmas leis, tradições, experiências comuns, etc. a Amazônia brasileira é paralela à constituição da Nação Brasileira, à unidade nacional (SILVA, 2004, p. 157-168-183) Logo, é necessário entender que a Amazônia, por consequên- cia, passou por processos, revoluções e involuções onde o capitalismo internacional e europeu operava a fim de dominar a região. Nesse con- texto, o indígena, que tinha uma relação tradicional com o meio am- biente que o circundava, era cada vez mais privado de liberdade e de direitos. O contexto observado sobre as diversas significações da Ama- zônia e o processo pelo qual a região passou frente à percepção dos na- tivos, permite a compreensão do modo de ver a problemática ambiental como fator externo, ou seja, como algo que não atinge diretamente o seu cotidiano, está relacionado ao fato de que o nativo da Amazônia sofreu influências históricas, geográficas e sociais que consolidaram as repre- sentações sociais acerca do tema. Educação socioambiental: um processo excludente Certamente, a educação socioambiental é um dos principais fatores que influenciam a consolidação do imaginário amazônida acer- ca da região. Afinal, ela é “conhecida pelo seu engajamento político na construção de uma sociedade justa, sustentável e democrática” (REI- GOTA, 2008, p. 61). Todavia, diversos são os fatores relacionados à di- ficuldade de consolidação do tema ao longo da vida dos atores sociais que habitam este espaço, enfraquecendo o saber dos mesmos sobre o que os cerca. As reclamações das populações amazônidas, assim como ou- tros processos de resistência, revelam o inconformismo frente à reali- dade social percebida. Basicamente, porque compreendam a complexa relação de dominação ideológica historicamente imposta, junto com o processo de invasão, apropriação e violência -colonização-. Nesse sen- tido, suas reivindicações por uma Educação Ambiental pautada na sua cultura, entre outros aspectos sociais e ambientais, alimentam os dese- jos de lutas por mudanças (ANDRADE, 2014, p. 32). - 34 - A partir desta dificuldade, revela-se uma construção discur- siva e imaginária do homem amazônico a partir de suas próprias con- vicções, atribuindo significados aos objetos sociais que o rodeiam. En- tre estes objetos está o meio ambiente (REIGOTA, 2001). As mudanças ocorridas neste contexto levam Matos (2015) a afirmar que os processos sociais nos tornam capazes de entender que as capacidades biológicas humanas fazem com que o indivíduo não siga a mesma direção de for- ma contínua, portanto, seus caminhos e formas de compreensão estão em constante transformação. Uma problemática muito discutida no sistema de educação neste contexto está relacionada à definição das disciplinas obrigatórias na escola. Muitos estudiosos sugerem a inserção de matérias relaciona- das à educação ambiental na Amazônia no âmbito escolar formal. “Não se trata de parcializações acadêmicas, mas de definir temas a partir de centros de interesse comuns e significativos, a estruturação da apreen- são do conhecimento se dá como consequência desse processo (TRAG- TENBERG, 1980, p. 82).” Ao falar sobre educação ambiental, também é preciso levar em consideração a educação não-formal, que acontece em paralelo ao ensino formal, realizado nas instituições formais de ensino (GOHN, 2014). Isso evidencia que a educação ambiental não se consolida apenas nos espaços tradicionais, especialmente no caso da Amazônia com as suas problemáticas acerca desse tema. A construção do conhecimento se dá a partir de diversos olhares que culminam na formação de um imaginário sobre o tema em questão. Uma relação cultural com os elementos da natureza Em uma região que tem como principal característica a bio- diversidade, o amazônida convive, historicamente, com os elementos na natureza no seu cotidiano. Neste sentido, o uso de alguns elementos da natureza (como o fogo e a água, por exemplo) por parte dos indiví- duos que vivem nesta região pode ser tido sob o ponto de vista externo, ou seja, de pessoas não nativas da região, como um uso inconsequente e irresponsável. No entanto, é preciso compreender que este manuseio está relacionado às práticas culturais na Amazônia e os elementos da natureza possuem uma representação social peculiar para os povos que nativos da região. - 35 - Esta relação do homem com os elementos, especificamente com o fogo, está relacionada às tentativas de dominação e controle, con- forme afirma Gebara (2014, p. 57): Deve ter havido um tempo em que nenhum hominídeo ou grupo humano possuía qualquer controle sobre o fogo. Então, em um determinado momento algum hominídeo ou grupos humanos tiveram pelo menos algum controle sobre o fogo. Esse período de coexistência simultânea chegou ao fim quando, finalmente, todos os grupos huma- nos possuíam a habilidade de controlar o fogo. Embora a discussão sobre as queimadas na Amazônia esteja cada vez mais em evidência, o caso do uso do fogo pelo homem que vive na região é uma problemática cultural, afinal este elemento é co- mumente utilizado para espantar pragas. O fato é que a apropriação do fogo pelo amazônida está relacionada à limpeza da terra, à fertilização do solo e ao controle da natureza. É necessário compreender, portanto, a importância dos elementos no modo de vida dos moradores da Ama- zônia, levando em consideração que estes fazem o manuseio não com o objetivo de destruição, mas de utilidade. Neste sentido, a racionalidade de uso dos recursos naturais e dos elementos da natureza inerentes à rotina de trabalho do morador da região precisa ser levada em consideração tendo em vista fatores como educação, cultura e geografia. Como elementos de trabalho, na maioria das vezes o uso destes recursos é necessário principalmente porque, não fossem eles, os produtores precisariam investir em alternativas financei- ramente inviáveis em alguns casos (NEPSTAD, 1999). O mesmo pode-se observar em relação ao uso dos recursos hídricos, pelo fato de se tratar de uma região banhada por uma ampla bacia hidrográfica. A questão do uso da água na região, por sua vez, sempre foi ditada por interesses políticos e econômicos. Em relação ao seu povo, tem-se que “cada tipo de sociedade estabelece critérios para a maneira pela qual os recursos disponíveis no ambiente devem ser utili- zados” (RIBEIRO, 2004, p. 33). Os recursos hídricos assumem diversas ressignificações ao longo dos anos no imaginário amazônico, de forma que o rio em determinado espaço de tempo faz parte da rotina diária desse povo, ao utilizá-lo para lavar roupas, louças e fazer a higiene pes- soal. A problemática da água na Amazônia está relacionada ao uso e ao acesso ao recurso, levantando a questão da abundância em contraponto com a inacessibilidade, o que traz à tona a maneira como o homem uti- liza a água (BECKER, 2003). - 36 - Considerações finais A Amazônia é um campo de estudos que permite à ciência uma observação multidisciplinar. Os fatores históricos, culturais e so- ciais relacionados a essa região levam em consideração sua posição geo- gráfica, as questões ambientais e as características do povo nativo. Esta pesquisa proporcionou a compreensão da Amazônia e do modo como as suas representações sociais frente à percepção do povo nativo da região foram estabelecidas. Isso significa que os proces- sos multidisciplinares pelos quais a região passou fez com que os nativos tivessem uma imagem peculiar em relação à Amazônia, baseada nas próprias vivências, com poucas contribuições de olhares externos, por exemplo. A educação ambiental falha, característica dessa região e mo- tivada por diversos fatores políticos, sociais e geográficos, colabora para que essa situação continue a acontecer. Notou-se que o uso dos elementos da natureza por parte dos nativos por vezes é feito de maneira inconsequente, como a utilização do fogo como inseticida (para o controle natural de pragas) que pode causar queimadas. Este contexto nos faz observar que quando se trata de Ama- zônia, a interdependência entre indivíduo e sociedade presente no con- ceito de figuração de Elias (1990) se faz evidente. Esta pesquisa permite fazer uma reflexão, ao mesmo tempo que abre uma oportunidade para outros desdobramentos acerca de temas relacionados à percepção dos nativos da região Sul e Sudeste do Brasil sobre Amazônia. É provável, inclusive, a identificação de possíveis nuances similares dessa percepção na obra de Gondim (1994) em relação à visão dos europeus acerca do “paraíso perdido”. Pode-se afirmar, portanto, que este estudo oportuniza novas pesquisas e novos olhares acerca do debate que envolve Amazônia, so- ciedade e cultura, ao passo que se une e contribui à larga literatura que vem sendo consolidada nesta temática. As oportunidades para novos estudos que esta discussão en- seja? Referências ANDRADE, Francisca Marli R. Educação Ambiental na Amazônia: um estudo sobre as representações sociais dos pedagogos, nas escolas da rede pública municipal de Castanhal - Pará (Brasil). Tese de doutora- - 37 - do. Universidade de Santiago de Compostela (USC), 2014. Disponível em: Acesso em 07.04.2021. BASTOS; PINTO; Vozes da Amazônia: investigação sobre o pensamen- to social brasileiro. Editora: EDUA. Manaus, Amazonas. 2007. BECKER, Bertha. Inserção da Amazônia na Geopolítica da Água. In: ARAGON, Luís Eduardo; KLUSENER-GODT, Miguel (org.). Proble- mática do uso local e global da água na Amazônia. Belém: NAEA, 2003 clássicos e contemporâneos. 11. ed. São Paulo: Loyola, 2014. ELIAS, Norbert (1990) [1939], O Processo Civilizador: vol. 1 – Uma História dos Costumes, Rio de Janeiro, Jorge Zahar Editor. GEBARA, Ademir. Leituras de Elias e teorias do processo civilizador. Saral, Magda. Universidade Estadual de Maringá. Paraná, 2014. GOHN, Maria da Glória. Teoria dos movimentos sociais: paradigmas MATOS, Gláucio Campos Gomes de. Ethos e Figurações na Hinterlân- dia Amazônica. Manaus: Valer/Fapeam, 2015. MORAES, Antonio Carlos Robert. Ideologias geográficas. Espaço, Cul- tura e política no Brasil. São Paulo, SP: Hucitec, 1988. NEPSTAD, Daniel. 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A criação da Zona Franca de Manaus foi a segunda fase da economia, quando foram implantadas as indústrias nacionais e internacionais na cidade em 1957. Ambos os fatos causaram o crescimento demográfico desor- denado na cidade, devido a vinda de pessoas de vários lugares princi- palmente do campo que ocasionou o êxodo rural, a cidade se expandiu rapidamente, porém não estava preparada para o grande número de migrantes e imigrantes. Com o crescimento urbano desordenado surgiram vários problemas sociais como desemprego, miséria, mendicância, saúde e educação precárias, violência, déficit habitacional, falta de infraestru- tura adequada. Na visão do autor Márcio de Souza (2010), A Zona Franca de Manaus também está ligada de forma estratégica à economia interna- cional através das indústrias multinacionais, implantadas para o desen- volvimento econômico do Amazonas. Estes fatos históricos foram escritos pelos seguintes autores amazonenses: Edineia Mascarenhas Dias (2007), Mário Alexandre Mo- rei Ferreira (2003), José Barata Leno (2010), Fadel David Antônio Filho (2010), Marcio Bentes (2010) dentre outros escritores. 1 Mestranda no Programa de Pós-Graduação Sociedade e Cultura na Amazônia – PPGSCA/ UFAM. Pesquisadora bolsista da CAPES, e-mail: angelfamiliaa@gmail.com 2 Professor, orientador, doutor em Tecnologias Educativas pela Universidade de Ilhas Baleares. Professor da Universidade Federal do Amazonas. E-mail: evandromramos@hotmail.com - 40 - Neste trabalho será enfatizado o autor Márcio Gonçalves Bentes de Souza, o escritor nasceu em Manaus no estado do Amazonas em 1946, romancista, dramaturgo, ensaísta, contista e diretor de cine- ma. Sua obra intitulada A expressão amazonense: do colonialismo ao neocolonialismo, (2010), descreve com riqueza cultural e histórica do Amazonas, desde o processo de colonização do Norte do país, a explo- ração do látex na passagem do século XIX para o XX, durante o chama- do ciclo da borracha. O objetivo principal deste artigo é apresentar um breve relato histórico do desenvolvimento urbano a partir das leituras dos autores da literatura amazonense, dando ênfase na obra intitulada A expressão amazonense: do colonialismo ao neocolonialismo, de Márcio de Souza, (2010), um dos escritores crítico da literatura brasileira, relata: Os ama- zônidas não conhecem sua história criticamente. (SOUZA, 2010, p. 19). Desenvolvimento urbano a partir do Ciclo da Borracha na cidade Manaus capital do Amazonas. Segundo Souza (2010), os documentos sobre os acontecimen- tos e ou fatos políticos e cultural do Amazonas estão em mão de pessoas estrangeiras, (portugueses, espanhóis, ingleses e franceses), que se apos- saram como proprietários destes documentos históricos, relata: O processo político e cultural desta terra que padece de uma com- pleta ausência de investigação científica e está assolada pelo recen- seamento ou pelo beletrismo. A história do Amazonas é a mais ofi- cial, a mais deformada, encravada na mais retrógrada e superficial tradição oficializante da historiografia brasileira. Pouco estudada, verdadeiramente abandonada, com uma bibliografia parca e docu- mentação rara e saqueada por inescrupulosos que se julgam pro- prietários do passado. (SOUZA, 2010, p. 19). Como relatado por Souza (2010), muitos documentos que descreve a história do Amazonas, também está de posse dos franceses, como podemos verificar na pesquisa realizada por Filho (2010), que re- lata que entre os anos de 1735-1743, a Academia de Ciências na França toma conhecimento através dos relatos escritos pelo cientista francês Charles Marie de La Condamine, encarregado de medir o arco meridia- no terrestre e esteve na América do Sul. O cientista La Condamine passou por Equador, Peru e Ama- zônia brasileira, relatou para a Europa o uso da pegajosa e espessa seiva (látex da seringueira) com a qual os índios do rio Napo e do rio Amazo- nas, confeccionavam objetos utilizado na pesca e na caça. - 41 - Na região central da floresta amazônica, ocorreu o Ciclo da Borracha entre os anos de 1879 e 1960 e as duas cidades que ficaram famosas foram: Manaus conhecida como a Paris dos Trópicos e Belém que ficou conhecida como a Paris n’América e tornaram-se as capitais brasileiras mais desenvolvidas, com eletricidade, sistema de água en- canada e esgotos, museus, teatros, cinemas, palacetes, bondes elétricos, entre outras estruturas construídos sob influência europeia. A partir do início do século XIX, a exploração da borracha já era uma realidade: em 1803, na cidade de Paris, era fundada a primeira fábrica de produtos de borracha; em 1823, o inglês Thomas Hancock criou o elástico e, em 1839, Charles Goodyear desenvolveu o processo de vulcanização, tornando o látex um material viável para utilização in- dustrial. A Região Norte, principalmente as cidades de Belém e Manaus que tiveram seu apogeu econômico neste período em que exportavam a borracha para o mercado nacional e internacional. No entanto em 1877, mais de 70 mil sementes de seringueiras do Pará foram contrabandeadas para Inglaterra, num escandaloso caso de biopirataria. Em 1910, tem início a concorrência da Hevea brasilien- sis plantada na Malásia, que utilizou aquelas sementes contrabandeadas décadas antes e produziu a custos muito inferiores aos da mata nativa no Brasil. Fato que causou a queda no preço do látex, tornando impos- sível a exploração comercial da borracha amazônica, com isso, a fabri- cação de borracha brasileira entra em crise, paralisando a economia nas regiões produtoras. (SOUZA, 2010). O ciclo da borracha viveu seu auge entre 1879 e 1912, depois experimentou uma sobrevida durante a  segunda guerra mundial  nos anos 1939-1945, que ficou conhecido como segundo ciclo da borracha. Em 1941, o governo brasileiro fez um acordo com o governo norte ame- ricano para extração de látex na Amazônia, (SOUZA, 2010). Nesse período de guerra os japoneses invadiram a Malásia em 1942, tomaram o controle dos seringais, os Estados Unidos por meio de seu Departamento de Guerra, repassou mais de 100 milhões de dólares ao Brasil em troca de artigos necessários à defesa nacional, dentre eles, a borracha. Em 1943 instituiu o alistamento compulsório, especialmente de nordestinos que sofreram com a seca. Este evento ficou conhecido como a batalha da borracha, a qual mobilizou mais de 100 mil soldados da borracha. Após a Segunda Guerra foi produzido a borracha sintética - 42 - que destruiu toda e qualquer pretensão comercial da borracha amazô- nica, a qual definhou até 1960. O Ciclo da Borracha trouxe ostentação, delírio e comple- ta alienação, que ocorreu no período da economia gomífera na região amazônica, trouxe à cidade de Manaus desenvolvimento urbano e em- belezamento no estilo europeu, que se tornou conhecido como Belle Époque, conforme Dias, uma ilusão do Fausto, (DIAS, 2007, p. 20), mas devido ao seu crescimento acelerado e expansão na cidade surgi- ram inúmeros problemas sociais e estruturais. O desenvolvimento urbano da cidade Manaus, que ficou co- nhecido como Belle Époque Amazônica nos anos entre 1890 a 1920. Período áureo de extração e exportação de produtos, que iniciou através de um processo de construção providos pelo capitalismo. O período gomífero trouxe o desenvolvimento econômico e urbano, mas que atendeu aos interesses da elite nacional e internacio- nal, desta forma houve a instalação de energia elétrica, sistema de água encanada e esgotos, telefone, construções de museus, teatros, cinemas, palacetes, bondes elétricos, entre outros construídos sob influência eu- ropeia para o embelezamento da cidade a população menos favorecida economicamente foi deslocada para os limites extremos e distante do centro urbano. (SOUZA, 2010). As habitações de cultura amazônica que foram construídos de modo rústico pelos ribeirinhos, como as casas construídas em ma- deira com cobertura de palha, taipa3 e palafitas4foram destruídas para que pudesse ser realizado as construções de palacetes e hotéis luxuosos. Os igarapés que cortavam o Centro de Manaus, foram soterrados e ini- ciou a infraestrutura com construções de largas avenidas, esgotos e agua encanada. O crescimento demográfico desordenado causou a expan- são da área urbana, que antes era concentrada na área do Centro da cidade, e foi se expandindo para áreas mais distantes, uma ocupação não planejada, e como consequência o surgimento de construções de moradias inadequadas em áreas desprezadas pelo mercado imobiliário, como: beiras de córregos, barrancos, terrenos sujeitos a enchentes, áreas 3 A taipa é um tipo de construção de paredes que utiliza barro amassado para preencher os espaços criados por uma espécie de gradeamento, de paus, varas, bambus, caules de arbustos etc.(Dias, 2007). 4 A palafita é um tipo de habitação construída sobre troncos ou pilares é comum em áreas alagadiças, pois deixa a casa em uma altura que a água não alcança. - 43 - mais frágeis próximos de igarapés em precariedade e vulnerabilidade social. Segundo Leno (2010), devido a população em situação de precariedade e vulnerabilidade social e desempregados sem condições de pagar aluguel, iniciou a construção das casas flutuantes, o qual ficou conhecido como cidade flutuante, que era um aglomerado de casas sub- normais, construídos em madeiras e cobertas de palha na frente da orla de Manaus. As construções belíssimas que foram realizadas pelo governo em Manaus, mostraram que havia possibilidade de grande acumulação no mercado financeiro no período da borracha, foi a época de migração e expansão urbana. Uma expansão excludente, devido ao crescimento populacional na cidade, imigrantes e migrantes que vieram à procura de condições de sobrevivência, as quais exigiram trabalho e moradia para a melhoria de vida. Esta fase gomífera entrou em declínio financeiro e de inves- timentos em vários setores e muitas pessoas perderam seus empregos, outras pessoas com maior poder político e financeiro deixaram Manaus e a cidade teve graves consequências políticas e sociais. O declínio do Ciclo da Borracha e suas consequências para população manauara Segundo Souza (2010), o monopólio do Ciclo da Borracha foi quebrado, devido ao contrabando das setenta mil sementes de se- ringueiras, para Inglaterra e posteriormente transferidas para a Malásia que tinha clima semelhante ao da Amazônia e teve sucesso na plantação de seringueiras na Ásia, de forma ordenada e custo financeiro mais bai- xo que o da borracha comercializada pela Amazônia. O declínio do Ciclo da Borracha se iniciou em 1912, a Ama- zônia teve uma baixa pela procura de compra da borracha, a crise fi- nanceiramente abalou a elite que retornou aos seus locais de origem e a cidade Manaus ficou sem uma política internacional e empobrecida. Manaus foi excluída do cenário político e do comércio in- ternacional. A crise financeira deixou uma população desempregada, miserável e discriminada pela pouca elite que permaneceu na cidade e pelo estado. A população em sua maioria era trabalhadores dos seringais que ficou desempregada e sem renda, então se fixou na periferia de Ma- - 44 - naus e tentou melhores condições de vida, porém sem finanças para o aluguel de um imóvel, construiu casa de madeira, coberta de palha nas margens do rio Negro, na orla de Manaus que ficou conhecida como a cidade flutuante, que se consolidou até a década de 1960. (LENO, 2010). As Moradias eram sem infraestrutura, sem energia e sem água encanada, em precária condição, mas a população na miséria, não podendo comprar ou morar de aluguel nas demais regiões das cidades, acabou invadindo outros espaços e construiu casas improvisadas, mui- tas vezes nem concluídas, construídas em locais de riscos, como bar- rancos muito altos e encostas, nas margens dos igarapés que durante as chuvas poderiam sofrer com deslizamentos de terras e provocar mortes. Zona Franca de Manaus a esperança de um novo desenvol- vimento econômico A Zona Franca de Manaus teve sua concepção através do de- creto-lei  número 3.173 de 6 de junho de 1957,  que instituiu o Porto Livre de Manaus, e dez anos depois houve de fato sua criação pelo de- creto-lei 288 de 28 de fevereiro de 1967, substituindo a lei anterior, seu objetivo era impulsionar o desenvolvimento econômico da Amazônia, desenvolvida para a produção articulada com a economia mundial. (FERREIRA, 2003). Segundo Souza (2010), a Zona Franca de Manaus foi a so- lução dos problemas principalmente o econômico, o comércio iniciou suas atividades com produtos produzidos pelas fábricas em Manaus. Após a implantação da Zona Franca de Manaus, houve cresci- mento econômico e prosperidades, surgiram novas lojas, grandes super- mercados, novos bancos comerciais e de investimento, universidades e muitas fábricas industriais nacionais e multinacionais. (SOUZA 2010). A infraestrutura urbana permaneceu a mesma desde o perío- do gomífero, a cidade tinha os mesmos serviços que foram implantados em 1910 que atenderam os desejos apenas da elite, houve aumento nos números de veículos, construções avenidas largas, novas estradas que facilitavam a saídas dos seus produtos industriais. Manaus teve uma segunda onda de migração de pessoas vin- do da área rural e de outros lugares, entre eles comerciantes e empresá- rios nacionais e internacionais ocasionando um inchaço populacional, sem infraestrutura adequada. As pessoas atraídas para a cidade em expansão provocaram os problemas sociais pois, as indústrias não absorveram toda a mão de - 45 - obra, surgiram trabalhadores excedentes, as pessoas em busca de traba- lho e que não conseguiram ficaram desolados e buscaram novas alterna- tivas de renda através do trabalho informal. A população em situação de vulnerabilidade social e desigual, sofreram as consequências com os problemas urbanos como falta de água e esgoto, poluição hídrica, poluição atmosférica, resíduos sólidos, industriais, marginalidade, mendicância, desemprego, sem condições financeiras para comprar um imóvel para alojar sua família, construiu moradia inadequadas e em precárias em áreas de ocupações irregulares e o crescimento urbano desordenado, sem infraestrutura, aumentou os limites urbanos da cidade. As várias habitações de aglomerados subnormais que iniciou as ocupações irregulares em péssimas condições de habitabilidade para as famílias que necessitaram de um abrigo foram construídos de ma- deira e lona, insalubre para o ser humano, mas que nestas condições o homem busca sobrevivência, devido à falta de políticas públicas. Segundo Souza (2010), os bairros do São Raimundo, Raiz, Compensa, Coroado e Cidade de Palha, com casas construídas pela população de baixa ou sem renda, foram no início imundas favelas e guetos dos retirantes do interior. Os bairros surgiram de ocupações ir- regulares (invasão) com construção de imóveis inadequados para mora- dias, sem infraestrutura que posteriormente o governo urbanizou com infraestrutura nestes bairros. O problema social necessitou e necessita da intervenção deci- siva do Estado. O papel regulador do Estado é estratégico por favorecer a emergência do compromisso entre interesses múltiplos da sociedade (LENO 2010), e se inicia no ano de 1967 com a construções de conjuntos habitacionais, nos bairros Raiz, Japiim e flores para a população de baixa renda, que foi iniciando pela retirada da cidade flutuante, removendo compulsoriamente os habitantes desobstruindo a paisagem da região Central de Manaus, que desenvolveu naquele momento a instituição de uma política nacional de habitação para Manaus. Considerações finais A Amazônia viveu um período de efervescência econômica gomífera que teve sua glória surrupiada pelo contrabando de sementes e enorme plantações de seringueira, o comércio da borracha tornou o preço atraente na Malásia, ocasionou a decadência da borracha amazô- - 46 - nica em que houve esvaziamento pela elite abastada financeiramente e a cidade ficou abandonada política e financeiramente. O Ciclo da Borracha e a Zona Franca de Manaus foram os impulsionadores do desenvolvimento econômico e urbano em que apresentaram e ainda continua em nossa sociedade manauense, com a Zona Franca de Manaus, o contraste de riqueza de um lado e de outro a miséria da população nativa ou recém-chegada de outras localidades do mundo. É inquestionável a eficiência e a importância da Zona Franca de Manaus no desenvolvimento da região, após a implantação, as indús- trias instaladas na Zona Franca de Mana, em sua grande maioria utili- zam tecnologia avançada e apresentam um elevado grau de integração nacional e internacional. Movidas pelo processo de globalização, essas indústrias têm-se desenvolvido e modernizado, contribuindo para a in- tegração da economia do Amazonas à economia mundial. As Políticas Públicas são respostas governamentais para solu- cionar os problemas e atender as demandas existentes nas sociedades. Através de planos, programas e as ações governamentais que, articulan- do recursos dos governos e da sociedade civil organizada, destinam-se a intervir na realidade de Manaus. Observando Manaus mais detalhadamente, depara-se, de imediato, com as diferenças e os contrastes sociais existentes: bairros e residências nobres e conjuntos habitacionais luxuosos rodeados de fave- las e palafitas. Diante desse quadro caótico, fica claro o contraste entre a riqueza e a pobreza existente na cidade. Os aspectos históricos da Amazônia lembra uma relação in- trínseca existente entre o desenvolvimento econômico e urbano, sempre provocaram impactos positivos e negativos, e que as mudanças nos pa- drões produtivos e nas dinâmicas populacionais alteraram a natureza e, consequentemente, as condições socioambientais com as aglomerações urbanas na cidade de Manaus. Referências DIAS, Edineia Mascarenhas. A ilusão do Fausto- Manaus (1890-1920). Manaus, 2007. FERREIRA, Mário Alexandre Morei. O desenvolvimento do capitalis- mo em Manaus. Manaus-AM: UFAM, 2003. - 47 - FILHO, Fadel David Antônio. Riqueza e miséria do ciclo da borracha na Amazônia brasileira:um olhar geográfico por intermédio de Euclides da Cunha, São Paulo, 2010. LENO, José Barata, A cidade flutuante, Manaus sobre as águas, 1820- 1967. Dissertação de doutorado em histórias sociais. Pontifícia Univer- sidade Católica de São Paulo - PUC. 2010. SOUZA, Márcio. A expressão amazonense: do colonialismo ao neoco- lonialismo. 3 a ed. Manaus: Valer, 2010. - 48 - - 49 - O LAZER QUE NÃO TEMOS: REPENSANDO O LAZER A PARTIR DA REALIDADE DOS BAIRROS PERIFÉRICOS DE MANAUS Daniele de Souza Colares Tavares1 Alexandre Oliveira2 . Introdução Conceituar lazer tem sido, ao longo desses anos, um desafio para inúmeros autores com abordagens distintas. Na literatura podemos encontrar uma multiplicidade e va- riedade de definições relativas ao conceito de lazer, realçando aspectos diferentes que tornam difícil a obtenção de uma definição que abrange todos os aspectos importantes e definidores do lazer. Há complexidade também em sua etimologia, representando sentidos diferentes na sua raiz latina, a palavra lazer em latim significa licere, ou seja, “ser lícito”, “ser permitido”, corresponde ao tempo de folga, de ócio, de descanso ou entretenimento de uma pessoa. A popularização do termo lazer, é vivenciado hoje, de modo que todas as pessoas são capazes de falar dele, de defini-lo ou de consumi-lo de alguma forma, o que afasta o mesmo de sua concepção enquanto fato social relevante na vida humana, redu- zindo-o na maioria das vezes a mero produto de consumo. A partir dos anos 50 o lazer passa a ocupar espaço de gran- de relevância no meio acadêmico para tornar-se um amplo campo de estudos, pesquisas e aplicação. Seu caráter interdisciplinar, torna-se o destaque que busca facilitar a compreensão do lazer, exposto pelos mais diversos enfoques profissionais. A sociologia, antropologia e psicologia são algumas das áreas do conhecimento que têm contribuído de forma expressiva para melhor interpretação e compreensão desse fenômeno, na realidade, o lazer revela-se como um fenômeno psico-social com- plexo na medida em que se traduz por uma grande variedade de signi- ficados, atividades ou consequências para os participantes, tornando-se 1 Cursando mestrado de Sociedade e Cultura da Amazônia pela Universidade Federal do Amazonas – UFAM. 2 Doutor em Design pela PUC-Rio. Professor do Ensino Básico, Técnico e Tecnológico, no Instituto Federal de Sergipe – IFS e Professor Permanente do Programa de Pós-Graduação em Sociedade e Cultura na Amazônia – PPGSCA, da Universidade Federal do Amazonas – UFAM e no Mestrado em Educação Profissional e Tecnológica – ProfEPT do Instituto Federal de Rondônia. Email: olialx@gmail.com - 50 - difícil a possibilidade de uma definição única. No lazer uma mesma ati- vidade pode ter vários significados ou objetivos para os seus participan- tes, ou ainda diferentes atividades podem reunir o mesmo significado para diversas pessoas, enquanto necessidade humana fundamental, o lazer pode ser satisfeito de múltiplas formas, segundo os valores e inte- resses dos indivíduos, grupos e instituições em cada contexto histórico, social e cultural. Num primeiro momento, será apresentado o conceito de la- zer, identificando quais são os conteúdos pertinentes a ele. Outro ponto de vista abordado no presente artigo são as discussões sobre as noções de trabalho, lazer, tempo livre e cansaço adquirido através da sobrecarga de multitarefas, que incapacita uma atenção profunda e contemplativa. As discussões são finalizadas ressaltando a falta de espaços públicos para a prática de atividades de lazer nos bairros de baixa renda em Manaus, o lazer é propagado por muitos, mas, poucos têm acesso a ele. PENSANDO O LAZER O lazer, como atividade, espaço ou como contexto, providen- cia oportunidades para testar e construir a auto competência de uma forma que geralmente não é possível em outros contextos do dia a dia, geralmente imbuídos de formalidades e expectativas sociais ou mesmo de critérios avaliativos. É assim que os contextos de lazer, podem tornar-se contextos privilegiados de exploração e, consequentemente, de aprendizagem e desenvolvimento. Atualmente, um dos temas mais discutidos é o lazer. E na sociedade atual, dentre outras características, cumpre um papel educativo, em virtude de suas possibilidades pedagógicas, proporcio- nando ao indivíduo socialização, desenvolvimento cultural, intelectual e físico, além de incentivar a criatividade. É conveniente, portanto, descrever alguns conceitos de lazer encontrados na literatura, definido por autores que se propuseram ao estudo do mesmo. Marcellino (1998, p. 39) define lazer como “... a cultura, com- preendida em seu sentido mais amplo, vivenciada no tempo disponível. É fundamental como traço definidor, o caráter desinteressado dessa vi- vência”. O lazer também pode ser entendido como “um tempo uti- lizado na realização de atividades escolhidas livremente” (PADILHA, - 51 - 2002, p.125); ou como atividade sem obrigatoriedade com objetivo de alcançar prazer pessoal e realizada durante o tempo livre (GUTIERREZ, 2001, p.7). Assim sendo, para que haja lazer é necessário não só estar livre das obrigações do trabalho cotidiano, mas de outras obrigações tais como: familiares, sociais e religiosas. Essa função de compensação atribuída ao lazer normalmente é justificada pelo fato de que no tempo disponível, livre das obrigações, o ser humano pode descobrir-se enquanto pessoa, otimizando seus po- tenciais frente às características da sociedade. Ao abordar os conteúdos do lazer, faz-se necessário desta- car os três eixos básicos do lazer, que de acordo com Marcellino (2006, p.27), “são: o tempo de não trabalho, o espaço de sua vivência e a atitude do indivíduo”. Esses eixos são os pilares do lazer e isso demonstra que o lazer está ligado a várias áreas de atuação do homem, ou seja, o lazer tem uma função importante na vida do ser humano.   Vale ressaltar ainda, algumas variáveis que caracterizam o lazer como o estado de ser da pessoa, aspectos lúdicos, estilos de vida, economia e entretenimento, ecologia e preservação, arte e educação. Segundo Marcellino (2006, p.35) o “lazer pode ser classifica- do de acordo com seus conteúdos culturais que podem ser artísticos, intelectuais, manuais, físico-esportivos, turísticos e sociais”. Os conteúdos artísticos do lazer são aqueles que buscam, emoções, sentimentos e imagens que manifestam a arte. Quanto aos intelec- tuais tem como objetivo o contato com o conhecimento do real, as informações racionais e objetivas. Os conteúdos manuais são aqueles que buscam a manipulação de objetos e materiais, como o artesanato ou obras de artes plásticas. As práticas de exercícios e dos esportes, em que prevalece o movimento humano, estão rela- cionadas aos conteúdos físico-esportivos. Já os conteúdos turísticos tem como principal objetivo a busca de novas paisagens, de novas pessoas, novas culturas e costumes chamados assim de “quebra de rotina”. Por fim, no lazer que tenha os conteúdos sociais, se pro- cura o contato, o relacionamento e a interação com outras pessoas (MARCELLINO, 2006, p. 17) No lazer, pode se considerar então, não apenas suas possibi- lidades de descanso e divertimento, mas também de desenvolvimento pessoal e social. Vale ressaltar, que o entendimento do lazer não pode ser realizado “em si mesmo”, mas como uma das esferas de ação huma- na historicamente situada, tornando necessária a compreensão do lazer - 52 - para além de simples entretenimento, pois o lazer também está inserido em uma conjuntura política e cultural da sociedade. Entender e analisar a caracterização e conceituação do lazer demonstra porque é tão fundamental esta atividade na vida do homem. Se o indivíduo quiser melhorar seu desempenho no trabalho, suas obri- gações com a família ou quer obter bons resultados em qualquer área da sua vida, inclusive na saúde, é necessário dedicar mais tempo ao lazer, o que nos remete a outras questões: Quanto tempo o homem disponi- biliza para o lazer em sua vida diária? Será que há um equilíbrio entre o tempo dedicado ao trabalho e o tempo para o lazer? Para responder questões como essas, alguns fatores precisam ser analisados de acordo com a realidade e o contexto que o mesmo está inserido. Conforme Dumazedier (1979, p. 34), o lazer: “é um conjunto de ocupações às quais o indivíduo pode entregar-se de livre vontade, seja para repousar, seja para divertir-se, recrear-se e entreter-se ou, ainda, para desenvolver sua informação ou forma- ção desinteressada, sua participação social voluntária ou sua livre capacidade criadora, após livrar-se ou desembaraçar-se das obriga- ções profissionais, familiares e sociais”. Esse conjunto de ocupações que compõem o momento de lazer podem tanto ser feitos em casa, em locais ao  ar  livre ou em estabelecimentos fechados como um cinema, por exemplo, é necessário que o local proporcione relaxamento e conforto. As atividades de lazer são constantemente introduzidas, in- clusive, no espaço hospitalar para pacientes em tratamentos, especial- mente crianças, é uma forma de distrair e amenizar o sofrimento delas, a fim de contribuir com a sua recuperação pois elas estimulam o engaja- mento do paciente quanto ao tratamento e atividades em geral. Trabalho, Lazer, Tempo Livre e Cansaço A redução da jornada de trabalho sempre foi o item de maior destaque na luta dos trabalhadores. No Brasil uma das maiores reivindi- cações por parte dos grevistas, era a redução da jornada de trabalho que durava 11 horas, para essa conquista tiveram muitas greves, manifesta- ções e com isso algumas categorias de trabalhadores conseguiram redu- zir para até 9 horas ao dia. Com o passar dos anos foram conseguindo uma série de avanços que garantiram aos trabalhadores o direito ao la- zer, a legalização da jornada de trabalho de 8 horas ao dia e medidas que regulamentam as leis e compõem a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) que vigora até os dias atuais. - 53 - O trabalho, de acordo com a tradição, classifica-se a um nível superior, como um dever moral e um fim em si mesmo; o lazer classi- fica-se a um nível inferior, como uma forma de preguiça e indulgência, ambos os conceitos foram distorcidos por uma herança de juízos de va- lor, dessa maneira fica fácil reconhecer que até mesmo nas discussões sociológicas os conceitos de trabalho e de lazer são, com frequência, usados de forma vaga. A instituição do tempo livre surge logo após a revolução in- dustrial, graças aos movimentos sociais que conquistaram a aprovação das leis trabalhistas, à regulamentação das horas de trabalho e o direito às férias. Até então as classes trabalhadoras não possuíam o direito ao lazer, sendo este usufruto apenas das classes nobres. Embora, as sociedades tenham conhecido um “tempo livre”, nem sempre esse tempo foi encarado da mesma forma ou correspon- deu ao que entendemos hoje por lazer, principalmente nas sociedades industrializadas. Gradualmente o tempo livre e o lazer adquiriram um papel crescente na caracterização dos estilos de vida. Cada vez mais as alternativas ao tempo de trabalho são consideradas salientando-se o la- zer, mais do que o tempo livre, como fator essencial para a promoção de uma vida mais saudável. Com o decorrer da transformação ocorrida na estrutura so- cial, as expressões “tempo livre” e “tempo de lazer” tem sido utilizada na maioria das vezes até como sinônimos. No nosso vocabulário a expres- são “tempo livre” tem sido usada com o mesmo significado da expressão “lazer” embora, do ponto de vista conceitual tais expressões traduzem significados diferentes e essa diferença precisa ser analisada. A necessidade de desvincular, do ponto de vista conceitual, as noções de tempo livre e lazer, é tanto mais evidente quando está em cau- sa o que o lazer significa na vida das pessoas. O lazer já não corresponde a um tempo que sobra do tempo dedicado ao trabalho, mas trata-se de um tempo que pelas suas características pode proporcionar ao indiví- duo experiencias de bem-estar. Vale destacar que o excesso de trabalho, a falta de um tempo livre para relaxar e a falta da prática de uma atividade de lazer levam as pessoas a um cansaço extremo. Uma pesquisa realizada pelo Ibope em 2013 demonstrou que 98% dos brasileiros se sentem cansados mental e fisicamente, mostrou que os jovens de 20 a 29 anos representam a maior parte dos exaustos. - 54 - A pratica do lazer, pode ser também uma forma de encontrar a “cura” ou o “alivio” para uma sociedade cansada, doente e sobrecar- regada de múltiplas tarefas. As doenças da atualidade são de nature- za neuronal, tais como a depressão, ansiedade, síndrome de Burnout (SB), transtorno de déficit de atenção com síndrome de hiperatividade (Tdah) entre outras. Essas doenças, não são frutos de uma negativi- dade, mas sim causadas pelo excesso de positividade, acarretando a exaustão, esgotamento, ou seja, manifestações de uma violência neu- ronal. Para Han (2015, p.53) “O cansaço de esgotamento não é um can- saço da potência positiva. Ele nos incapacita de fazer qualquer coisa”. A maior preocupação das pessoas é executar o máximo de atividades possíveis para sentir a realização pessoal e profissional, o que dificulta voltar sua total atenção para um único momento seja ele de lazer ou não, demonstrando mais dedicação, desempenho e princi- palmente criatividade naquilo que se propõe a fazer. A multitarefa, ao contrário do que poderia parecer, não é uma evolução da natureza e da sociedade humana, mas se trata de um retrocesso. Trabalhar muito deveria ser sinônimo de “ter condições financeira para o lazer”, mas existem outros fatores acerca dessa situa- ção. A falta de um momento de lazer, de descanso e a oportuni- dade para o existir contemplativo é exatamente o que carece a huma- nidade. Essa atenção profunda, é indispensável não só para a saúde mental, mas principalmente para os desempenhos culturais da huma- nidade, dos quais faz parte também a filosofia. Ao contrário dessa atenção profunda, o que se tem hoje é uma excessiva atenção, dispersa, carregada por uma rápida mudança de foco entre diversas atividades e fontes de informações, as pessoas não reconhecem que tirar um tempo para não fazer nada, pode ser também um momento de lazer, dispor do tédio profundo não deixa de ser importante para um processo criativo. O tédio profundo estaria para o descanso espiritual assim como o sono está para o descanso físico, ambos importantes para todas as sociedades. A multitarefa não é uma capacidade para a qual só seria capaz o homem na sociedade trabalhista e de informação pós-moderna. Trata-se antes de um retro- cesso. Conforme Han (2015, p. 18): A multitarefa não é uma capacidade para a qual só seria capaz o homem na sociedade trabalhista e de informação pós-moderna. - 55 - Trata-se antes de um retrocesso. A multitarefa está amplamente dis- seminada entre os animais em estado selvagem. Trata-se de uma técnica de atenção, indispensável para sobreviver na vida selvagem. Sendo assim, com essa correria, o indivíduo é comparado a um animal que quando está se alimentando precisa se ocupar ao mes- mo tempo com outras atividades, inclusive se preocupar em não ser devorado enquanto come, ou seja, cada vez mais a vida humana se aproxima da vida selvagem. Essa sobrecarga de trabalho é a responsável pela fragmenta- ção e destruição da atenção o que acarreta uma geração cansada. Han (2015) afirma que “a sociedade do cansaço, enquan- to uma sociedade ativa, desdobra-se lentamente numa sociedade do doping” que possibilita de certo modo um desempenho sem desem- penho”, transformando o indivíduo “em máquinas de desempenho, que podem funcionar livres de perturbação e maximizar seus desem- penhos”, gerando “um cansaço e esgotamento excessivo” e levando a um enfarto da alma.” Trata-se, portanto, de um cansaço solitário, que acaba individualizando e isolando as pessoas. Esse excesso de positividade diz que somos capazes de fazer tudo e se trabalharmos bem e sempre, iremos conquistar nossos obje- tivos. A vida nessa sociedade de desempenho é medida de acordo com o que somos capazes de produzir e quanto mais nos desempenhamos, mais valor teremos. Essa é uma maneira de se cobrar além do necessário para produzir muito, só que ao invés do gestor de uma empresa, por exemplo, nos cobrar e impor essa condição, somos nós mesmos, a nível pessoal, que nos cobramos conforme afirma Han (2015) “… somos ao mesmo tempo prisioneiro e vigia, vítima e agressor”. Essa cobrança constante pelo alto desempenho separa o in- divíduo de uma vida saudável, com tempo para o tédio, para o ócio, pois faz com o mesmo trabalhe constantemente, sem folga e sem um tempinho para o lazer. Com base no que foi descrito acima sobre trabalho, lazer, tempo livre e cansaço, revela-se a necessidade de tentar responder uma questão para a reflexão da relevância do lazer na sociedade manauara e que é foco desse estudo: O lazer está ao alcance dos moradores de todas as classes na cidade de Manaus? Para tentar responder essa questão é preciso analisar em que contexto esses moradores estão inseridos e buscar conhecer a realidade desses bairros. - 56 - O lazer nos bairros de baixa renda em Manaus Manaus é uma cidade grande e diversificada, segundo o censo de 2019 da Fundação Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística-IB- GE sua população é de 2.219, 580 habitantes, número este que deve ter diminuído devido à alta taxa de mortalidade durante a pandemia que teve início em 2020. Lazer é algo muito cobiçado pelos moradores dos bairros ur- banizados de Manaus, mas iremos retratar dois dos mais populosos se- gundo estimativas do IBGE, especificamente o São Jose e a Compensa. São José Operário é um bairro situado na zona leste do muni- cípio de Manaus, é o sexto bairro mais populoso com 80.150 habitantes. Conta com escolas, feiras, bancos, supermercados e estabelecimentos comerciais, entretanto é considerado um bairro de classe baixa devido a renda mensal de seus moradores. A Compensa está localizada na zona oeste da cidade e é o quarto bairro mais populoso com 85.832 habitantes. Alguns conjun- tos como Ipase, Rio Xingu e condomínios integram o bairro, por isso é considerado classe média baixa. Trata-se de bairros marcados pela fama da violência, pelo alto índice de criminalidade e pela escassez de projetos e áreas que propi- ciem o lazer a população. Por isso é necessário reavaliar o lazer de forma a contribuir para a formação, oferecendo meios de desenvolver sua ca- pacidade de se socializar, obter uma vida saudável e acima de tudo de se sentir cidadãos. Alguns moradores tem a criatividade de formar times, organizam campeonatos e torneios de futebol, porém tais iniciativas encontram dificuldades, inclusive de continuidade, nem sempre conse- guem patrocínio dos comerciantes do bairro o que inviabiliza a compra de equipamentos como bolas, chuteiras e uniformes, além da falta do local adequado para realizar a competição, o que leva os jogadores a se deslocar para os bairros vizinhos. Outra situação muito comum, são crianças e adolescentes que jogam bola nas ruas, onde as garrafas pets se tornam traves e a alegria toma conta, a brincadeira às vezes precisa ser interrompida por conta do fluxo de veículos que transitam no local, mas isso não é empecilho para acabar com a diversão dos pequenos, apesar dos riscos que correm. O vôlei e a queimada também fazem parte do dia a dia dos jovens, só que em menor proporção. - 57 - Das poucas atividades de lazer, o futebol é certamente a pre- ferida e escolhida pelos moradores desses bairros segundo pesquisa realizada em 2017 pela Secretaria Municipal de Juventude, Esporte e Lazer-SEMJEL, porém essa prática se limita a alguns, pois são áreas des- providas de infraestrutura e equipamentos urbanos de lazer. Algumas escolas estaduais e municipais possuem quadras es- portivas, a única alternativa para as crianças, adolescentes e jovens que ainda frequentam as aulas. Existem também alguns clubes, academias e shoppings como opções disponíveis para o lazer daqueles que podem pagar. Isso não significa que as camadas populares não tenham al- ternativas de organização no âmbito do lazer, a criatividade das pessoas em inventarem artifícios como jogos organizados e campeonatos de- monstram que existem tais iniciativas e há muitos indivíduos preocupa- dos e envolvidos com projetos dessa natureza. Contudo, em função do quadro social, tais iniciativas encontram muitas dificuldades. A urbanização nas grandes cidades como Manaus fez surgir o fenômeno do lazer, que está disponível de várias formas para diver- sos tipos de indivíduos ou grupos sociais, todavia, o lazer é explorado de modo a gerar lucros sem a preocupação com o desenvolvimento do ser humano na busca de valores importantes para sua própria sobrevi- vência. Embora a jornada de trabalho tenha sido reduzida, os trabalha- dores não usam esse tempo de folga para lazer, pelo contrário, muitos buscam fazer bicos para complementar a renda da família e geralmente essa renda é usada para a compra dos itens básicos necessários para o seu sustento, quase nunca é usada para o lazer. Bairros de baixa renda como o São José e a Compensa não são vistos como público merecedor de lazer, não há investimentos por parte do governo em projetos, políti- cas públicas, serviços e equipamentos que promovam qualquer diversão para essas comunidades. A crise econômica crescente antes e durante a pandemia, a hierarquização das necessidades humanas e a falta de espaços públicos provocam impactos nos momentos de lazer da população desses bair- ros. Em bairros considerados nobre ou classe média a realidade é bem diferente e o acesso ao lazer acontece com mais facilidade, o bair- ro Parque 10 de novembro, por exemplo, localizado na zona centro-sul da cidade conta com vasta área arborizada, possui também o Parque - 58 - Municipal do Mindu onde são desenvolvidas atividades científicas, educativas, culturais e turísticas, contém zoológico e restaurante com grande satisfação gastronômica dos frequentadores. O Centro Social Urbano-CSU oferece aos moradores uma extensa área verde, duas pisci- nas, duas quadras polivalentes e dois campos de futebol. A comunidade possui ainda uma creche em tempo integral que atende crianças com idade de 3 a 5 anos, tudo isso sem os moradores precisar pagar nada. O bairro está atendido por agências bancárias, restaurantes, casa de sho- ws, delegacia especializada e uma fascinante vida cultural e noturna na famosa praça do caranguejo. Toda infraestrutura proporcionada pelo poder público fortalece seu aspecto atual de importante área residencial e o quarto bairro em renda per capita de Manaus. Nesse cenário de grande diferenciação social, as possibili- dades de diversão e relaxamento estão entre as primeiras perdas para grande parte da população periférica, se analisar a distribuição geográ- fica das oportunidades de acesso ao lazer em Manaus, trata-se de uma cidade que tem a vantagem de possuir teatros, shoppings, bibliotecas, parques, praças, cinemas e clubes, todavia, esses estabelecimentos estão localizados exatamente, em sua grande maioria, nas zonas que agregam a população de maior poder aquisitivo, ficando os mais pobres, desfavo- recidos em áreas mais afastadas. O interesse da máquina pública sempre esteve mais voltado para os projetos ligados a indústria cultural do lazer, acarretando um capital gerado por classes economicamente atraentes, o que não aconte- ceria se fosse oferecido o lazer de forma gratuita aos moradores. A falta de opção de lazer nos bairros periféricos de Manaus favorece significativamente o crescimento da violência, muitos jovens empregam sua energia e suas ideias para o mundo da criminalidade, os atos de vandalismo são quase sempre desenvolvidos entre os adoles- centes e jovens que vivem em bairros de baixa renda. A compensa é até hoje famosa pela presença de facções que dominam o tráfico de drogas. O incentivo ao esporte, promovendo torneios e competições é uma excelente estratégia contra a violência, as atividades ocupam o jovem em seu tempo livre ao mesmo tempo em que lhe proporciona lazer e acredita-se que o indivíduo com mente ocupada não irá dispor de tempo para o crime. O poder público, através da criação de políticas públicas e dos dispositivos legais deveriam criar e desenvolver mais pro- gramas e ações de lazer gratuitos voltadas para todas as classes sociais, - 59 - especialmente nesses bairros. Criar espaços de lazer na cidade como fator de desenvolvimento social é “pensar na auto-organização da so- ciedade, proporcionando vida comunitária e qualidade de vida, com a presença do poder público mais próximo da comunidade, entendida, por sua vez, como elemento participante no processo e corresponsável por ele” (SAWITZKI, 2011, p. 13). Nos bairros de baixa renda, muitos reclamam da falta de pra- ças esportivas, de quadras, campos etc. Se querem buscar uma atividade de lazer fora de casa, são obrigados a se deslocar para outros bairros, vale ressaltar, que as praças, parques e as áreas públicas de lazer estão nos bairros mais nobres da cidade. Os poucos espaços destinados ao lazer nesses locais se encontram em péssimo estado de conservação por conta da falta de manutenção dada pelos órgãos competentes. Muitos pais preocupados com os riscos, não permitem que seus filhos brin- quem na rua, e esses, sem escolha, são obrigados a brincar dentro de casa com seus carrinhos ou bonecas quando possuem. São José e Compensa, apesar da ausência de alguns serviços de infraestrutura necessários, podem contar com alguns projetos so- ciais implantados e desenvolvidos por voluntários que buscam contri- buir para a diminuição da violência dentro do bairro. Os profissionais promovem cursos gratuitos como informática, corte costura, manicure e pedicure, dança, teatro e também há os cursos que de algum modo servem como uma forma de lazer para os participantes. São iniciativas como essas que promove além de lazer, entre- tenimento, gera emprego e ocupa as crianças, jovens e adolescentes, já que os mesmos não dispõem de governantes que desempenhem esse papel. Na região norte, mais precisamente em Manaus, o lazer é ex- plorado de modo a gerar lucros e diversão, sem a atenção necessária para o desenvolvimento da população. Esta situação é provocada pela comercialização do lazer, porém essa comercialização não considera as comunidades de baixa renda como um público que de alguma forma possa usufruir de um momento de lazer, infelizmente não há muitas op- ções de qualquer diversão gratuita para essas pessoas, não há um lugar para passeios que relaxem a mente e o corpo sem que precisem tirar do pouco que tem. - 60 - Considerações Finais O lazer é definido como o processo amplo de criação de laços sociais e interdependência, diferente por exemplo do mundo das obri- gações sociais como escola, trabalho, família e religião onde ocorre con- trole e repressão. No lazer as formas de relação não são sistematizadas ou definidas de antemão como no trabalho, não há normas previamente estabelecidas e é encarado pelos autores como a busca de um descontro- le sob medida. O lazer pode ser, ainda, “uma ocupação escolhida livre- mente e não remunerada – escolhida, antes de tudo, porque é agradável para si mesmo” (ELIAS e DUNNING, 1992, p 107). Lazer é um direito de todo cidadão, porém esse direito parece ser negado ou limitado constantemente nos bairros de baixa renda de Manaus, os moradores tentam de alguma forma ter um momento de lazer, mas se veem diante do descaso total dos órgãos competentes que não criam políticas que promovam o lazer gratuito, parecem fingir a não existência dessas comunidades. Dentre os muitos benefícios que oferece para a saúde física e mental, o lazer é um veículo de grande força no caminho contra a violência e na formação social dos indivíduos. Ao longo desse artigo, vimos também que a sociedade atual vive mergulhada no mundo de trabalho, com múltiplas tarefas, exces- so de positividade, estímulos, informações e como consequência disso tem-se a destruição da atenção e uma sociedade de desempenho ex- tremamente cansada sem tempo para parar e contemplar a vida, sem tempo para o tédio profundo. Num cenário como esse, seria possível trabalhar se divertin- do? Já que o ser humano precisa tirar um tempinho para o lazer ou simplesmente para não fazer nada. Destacou-se ainda que a redução da jornada de trabalho não possibilitou a prática de atividades de lazer, pois muitos procuram preencher esse tempo com trabalhos extras. E ainda há aqueles que mesmo com tempo livre não tem acesso ao lazer pela falta dele em bairros periféricos ou pela dificuldade financeira. Referências MARCELLINO, N.C. “Lazer: Concepções e Significados”. IN: REVISTA LICERE, Belo Horizonte, v.1, n.1, 1998. MARCELLINO, Nelson Carvalho. Estudo do lazer: uma introdução. Campinas: Ed. Autores Associados, 2006. - 61 - PADILHA, V. “A indústria cultural e a indústria do lazer: uma aborda- gem crítica nas sociedades capitalistas globalizadas”. In: MULLER, A. e DACOSTA, L. P. Lazer e desenvolvimento regional: um entrejogo possí- vel. Santa Cruz do Sul: EDUNISC, 2002. GUTIERREZ, G. L. Lazer e prazer: questões metodológicas e alternati- vas políticas. Campinas – SP: Autores Associados, 2001. DUMAZEDIER, J. Lazer e Cultura Popular. São Paulo: Ed.